segunda-feira, outubro 25, 2004

A ALMA ANCESTRAL DO BRASIL

A ALMA ANCESTRAL DO BRASIL

Roberto Gambini

Tenho refletido sobre o Brasil apoiando-me em minhas duas vertentes, a de sociólogo e a de analista junguiano. Para entender uma pessoa preciso compreender o meio em que ela vive e só posso entendê-lo se compreender a pessoa. Essas duas dimensões cominham eternamente juntas e da mesma forma como me sinto sempre fascinado para compreender os mecanismos do inconsciente, as idéias de Jung e a fenomenologia do espírito, sinto-me permanentemente atraído a pensar sobre este país. Minha maneira de refletir sobre o Brasil tem sido através da imagem da alma - e quando digo alma, esta palavra tão usada e abusada pelo Catolicismo, digo algo que todo mundo entende. Estou, há muito tempo, em busca da alma brasileira e para isso tenho feito uma reflexão acerca de nossa origem, de nossa História e de nosso drama arquetípico. Num certo momento da trajetória senti-me compelido a retroceder no tempo para muito antes de nossa origem européia e foram então tomando forma a idéia e o interesse por algo que passei a chamar de "alma ancestral do Brasil".
Nós, como povo, temos um grande problema, que é a ausência de um mito de origem. Temos vergonha de nosso passado, que encaramos como se fosse um buraco negro, uma bruma, uma imagem vagamente aterradora ou claramente desprezível. Começamos a contar nossa história de povo a partir de um ato fabuloso chamado Descobrimento - que sabemos ser um inverdade e o termo correto, Invasão - e construímos um arremedo de identidade a partir de 1500, o ano do encontro de duas parcelas da Humanidade, uma caucasiana e outra autóctone, indígena. Mas não levamos em conta o mito de origem. Tal fato me parece acarretar graves conseqüências no que diz respeito à estruturação de nossa consciência coletiva e à maneira como individual e coletivamente nos relacionamos com as camadas profundas do inconsciente. Como negamos nossa origem ancestral, nós a deturpamos, nós a transformamos em algo diverso do que é. Enquanto povo, começamos já destruindo aquilo que tínhamos de mais precioso. Acolho essa idéia com bastante interesse, porque acho que ela nos ajuda a entender o subdesenvolvimento, que não nos "aconteceu" no século XX; nós já começamos subdesenvolvidos. Porque a alma ancestral brasileira é de uma riqueza, de uma importância, de uma profundidade tal que, se não a tivéssemos negado, estaríamos realizando através de nossa história uma grande síntese de duas maneiras de ser humano, a européia e a ameríndia. Mas não foi feita uma síntese histórica de duas polaridades; o que ocorreu historicamente foi a negação de um pólo pela predominância arrasadora de outro.
Seria bom se começássemos a pensar em nós mesmo do seguinte modo: temos atrás de nós um tesouro inestimável, sistematicamente negado e ignorado através dos séculos. Como isso se deu historicamente a partir do século XVI é fácil pesquisar. Mais difícil é reconhecer que essa negação continua até hoje a se repetir no interior de nossa psique e é por essa razão que me sinto motivado a falar sobre esse tema. Geração após geração repete-se na cultura e em cada um a destruição de uma raiz preciosa e jamais reconhecida. Jung nos ensinou claramente: a inconsciência coletiva se auto-perpetua. Nossos filhos continuam a carregar a mesmo coisa que nós. Será que a consciência coletiva brasileira vai continuar ignorando e desqualificando sua raiz mais profunda, base e sustentação de sua mais verdadeira individuação?

Quando digo raiz, estou pensando em coisas mais precisas. As evidências atuais da Arqueologia, que é um campo em rápida transformação em nosso meio, indicam que o território ameríndio vinha sendo ocupado por seres humanos não há dois, três ou quatro mil anos, como sempre se supôs, mas há dez, vinte, trinta... Essa é uma disputa teórica que envolve interesses acadêmicos pesados, porque se houver o reconhecimento de que o homem entrou, certamente pela Península de Yucatã, na América do Sul há cinqüenta mil anos, isso muda muitas afirmações evolucionistas e muita teoria da Antropologia Física sobre ocupação de territórios, expansão, adaptação, difusão de inventos e periodizações culturais. Há muitos interesses pseudo-científicos em jogo. Mas hoje existe o método de datação pelo carbono 14 e muita coisa ficará esclarecida. Os professores de História do Brasil vão ter que se reciclarem para poderem então dizer às crianças algo do tipo: "imaginem que este solo em que pisamos talvez há cinqüenta mil anos já era habitado..."
Isso significa que as grandes questões da humanidade, as eternas questões do ser humano, já estavam sendo elaboradas e já tinham sido resolvidas por esses povos indígenas há milhares de anos, muito antes do surgimento de Portugal ou da própria civilização européia que veio a ser a matriz de nossa atual consciência. Que questões são essas? São as seguintes: Como sobrevive e não se morre de fome, de abandono, de ataques violentos? Como se vive em sociedade? Como se procria? Como se organiza o convívio? Como se resolve o problema da cultura material, da produção de bens de uso? Como se dá sentido à vida? O que é o bom, o belo, o justo? O que é cruel, mau, injusto? O que é a morte, e o que há depois dela? O que é a doença, como se promove a cura? Como tudo começou? O que torna a vida bela e nos faz ter vontade de vivê-la? Onde se pode cozinhar uma comida, onde se pode guardar água, onde se pode morar? Como se atravessa um rio, como se mata um onça?... Essas questões foram todas, sem exceção, resolvidas pelos povos ditos primitivos que habitavam as Américas de Norte a Sul de maneira tal que o resultado acumulado é um saber altamente organizado, profundo, completo, coerente, muito diverso do nosso e ao qual chamo de tesouro (ou de raiz). É um conjunto de observações da natureza que se estruturou e confirmou ao longo de séculos e séculos, produzindo conhecimento sobre a terra, o corpo, a mente, o espírito, o grupo, os outros e os deuses, a flora e a fauna, a metereologia, as águas, o vento e o fogo, a cópula, os sentimentos, a dor, os desejos, a morte e o além, o horror, o encantamento e a eternidade. Isso tudo cria alma.
O nome disso tudo é alma ancestral, que passa a ser o patrimônio humano supremo, transmitido pela educação quando possível e que com o passar do tempo acaba se incorporando como uma qualidade da cultura e da consciência. O que é um arquétipo? Um arquétipo é uma predisposição, um formato imanente à psique, mas com um ponto de origem no tempo, na História e no espaço. O arquétipo paterno ou materno nasceram no escuro do passado, nos animais e depois nos seres humanos, através de infinitas repetições, que se cristalizaram em nossa psique como uma prontidão para reagir a atuar em determinadas situações que os evocam. Ora, os arquétipos estavam se formando também no Brasil pré-histórico, nesse passado remoto e negado que imaginamos como não nos pertencendo e que vamos buscar nos livros e nas teorias que o evocam alhures e nunca aqui. Há arquétipo da psique brasileira que estão muito bem datados e localizados no solo ameríndio. Lembremo-nos de Jung, que dizia que a psique tem um solo, a psique não vive no ar. Terra e psique, espírito e matéria são duas faces da mesma realidade e não precisamos ler isso em Mysterium Conjunctionis apenas. Isso está no solo brasileiro, os arquétipo também se fizeram aqui, como em outras partes do planeta. Proponho que olhemos para isso e nos perguntemos quantos deles estão adormecidos no nosso inconsciente profundo e o que pode nos acontecer, enquanto povo e enquanto indivíduos, se soubermos entrar em contato com esse lençol freático através de uma raiz suficientemente funda. Eu queria ver isso acontecer no Brasil no terreno da psique. A tarefa histórica que nos cabe é vitalizar essa raiz e absorver dessa camada profunda a seiva que vai nos tirar do subdesenvolvimento. E nos tornar, a nós que trabalhamos com isso, junguianos brasileiros - porque estaremos expressando a alma que na verdade nos mantém. Quer reconheçamos ou não, atravessamos a vida montados na energia dessa alma - pois negada ou não (como mandou Jung gravar sobre o portal de sua casa em Küsnacht), ela está sempre presente.
Há mitos em nosso imaginário ancestral - como por exemplo o da proibição de auto-devoração - cujo núcleo deve remontar à época perdida no tempo em que o homem se condicionou a viver de caça e não de carne humana, provavelmente quando estava descendo das árvores, procurando o abrigo das cavernas e inventando as primeiras armas e ferramentas. Ninguém se aventurou ainda a fazer uma tentativa de datação desses mitologemas - mas para quê fazê-la, se a consciência contemporânea não atribui a menor relevância psíquica à incorporação desses fragmentos perdidos de alma ancestral? A proibição do incesto enquanto condições para o nascimento da cultura - tema tão caro a Freud, Jung ou Lévi-Strauss - está decretada nos mitologemas brasileiros coetâneos ou subsequentes ao aparecimento das primeiras regras de parentesco. O mito segundo o qual a mulher transformada em cobra não se acasala com o irmão, mas engole seu corpo e posteriormente o regurgita coberto de pinturas, é a demonstração brasileira da idéia de que o incesto é proibido porque, se não o fosse, não haveria nem sociedade, nem arte. No aconchego dos ninhos quentes do convívio endogâmico, um rapaz se deixaria ficar para sempre com as mulheres de seu sangue e não sairia jamais em busca de outras, com as quais fundaria novas unidades de parentesco, reprodução e troca econômica. Não haveria circulação de mulheres (para usar a terminologia de Lévi-Strauss), que ao lado da circulação de bens e de palavras constitui uma das estruturas elementares da vida cultural em sociedade. Onde há incestos não há cultura e não há troca, não há humanidade, nem evolução. Nossos mitos sabiam e prescreviam isso. Mas nós não sabemos que nossos mitos já sabiam. Nem que tínhamos mitos.
Ora, essa idéia, que é uma idéia teoricamente trabalhada pela Antropologia, pela Psicanálise ou pela Psicologia Analítica, está muito bem representada na mitologia brasileira. Não seria um motivo de crescimento interno para nós entrarmos em contato com isso - nós, que ficamos voltados para fora sempre, invejando talvez os quatro mil anos do mito de Gilgamesh, o mais antigo da civilização ocidental... mas e os nossos mitos ignorados? Tenho certeza de que se Jung tivesse tido a oportunidade de conhecer a história indígena das Américas ele teria incorporado todo esse riquíssimo material em sua obra, como objeto de estudo per se ou como corpus amplificatório. A tarefa ficou para nós. Proponho justamente uma reflexão sobre tudo isso em termos anímicos.
Nós analistas cuidamos da alma. Temos que perceber quais partes dela estão silenciadas, quais partes estão presas, quanta libido está cristalizada na alma brasileira - porque é fundamentalmente isso que vai nos ajudar a nos tornarmos aquilo que podemos nos tornar e deixarmos de ser sub, isto é, não chegarmos a ser aquilo que potencialmente somos. Esse é o nosso grande drama, essencialmente brasileiro, e o nosso desafio - o desafio do atraso. Ficamos sempre abaixo e aquém - e isso não se resolve nem estudando, nem absorvendo o Primeiro Mundo, nem atribuindo essa tarefa à Política, à Economia, ao Direito Internacional, à Constituição. Essa é uma tarefa psíquica: sairmos da maldição de não podermos ser aquilo que potencialmente somos aprofundando nossa raiz nesse lençol freático subterrâneo onde jaz fossilizada a alma brasileira.
Cada paciente nosso traz dentro de si essa história em miniatura, dizendo sem claramente dizer: "eu podia ser um pouquinho mais aquilo que no fundo sei que sou". E nós, escutando outras palavras, ouvimos exatamente isso e seja qual for nossa linda de trabalho, tentaremos atingir essa camada não vivida do paciente. E para isso temos que entendê-lo como uma pequena peça de um todo que também espera ser compreendido, e nos entendermos a nós mesmos como instrumento de desvelamento do adormecido.
Esse é o núcleo da reflexão que tenho feito sobre nossa alma ancestral e agora eu gostaria , talvez para equilibrar a argumentação, de dizer algo sobre a alma brasileira que se desenvolve a partir da negação da ancestralidade, historicamente em 1500. Foi aí que anos atrás comecei meu estudo, a partir de uma perspectiva em que se combinam a Psicologia Analítica, a História e a Antropologia. Minha tese de formação no Instituto C.G. Jung de Zurique foi uma análise da correspondência jesuítica. Essas cartas, escritas no decorrer do século XVI, são os primeiros documentos brasileiros, a semente de nossa literatura e de nossa consciência coletiva cristã. A primeira delas é de 1549, na qual o recém-chegado missionário Manoel da Nóbrega inicia um relato, ao qual se juntariam outras vozes, em que é descrita a terra brasileira e seus habitantes. Achei que entender o que vinha exposto nessas cartas me ajudaria a perceber, enquanto analista, qual o conflito original a partir do qual teria começado a se estruturar a alma brasileira.
O ano de 1500, se relembrarmos as considerações que faz Jung em Aion, é um ano marcado arquetipicamente, configurando um dos pontos de inflexão da dualidade que determina a história dos dois mil anos da era de Peixes. Na imagem astrológica, a metade do segundo peixe corresponde ao ano de 1500 e ao Renascimento italiano - e, como sabemos, ao Descobrimento (melhor dizendo, à Invasão) do Brasil pelos portugueses. É portanto o ano da retomada da alma ocidental, da alma latina. Mas Jung não diz, porque essa realidade não lhe era tão presente, que esse é também o ano (arredondemos as datas) do encontro entre brancos e ameríndios. A "descoberta" do Novo Mundo não é apenas uma conseqüência dos progressos da navegação desenvolvida pela escola de Sagres, da expansão mercantil ou do extremado arrojo português constelado nesse período, mas um fato histórico determinado arquetipicamente: o encontro de duas partes da humanidade estruturadas sobres bases distintas. Cada parte envolvida viveu e vive até hoje as consequências desse portentoso evento. Para Portugal, foi o apogeu de sua coragem ultramarina, de sua capacidade de penetração e conquista - e o momento de encontrar sua alteridade, seu oposto. Para a nova terra, foi o começo da destruição de sua alma ancestral e de suas populações autóctones. Dois arcos cruzando-se no tempo: um em ascensão, outro em declínio.
Para nós junguianos essa idéia, ou esse fato histórico, pode render muito. Porque o processo de individuação, pessoal ou coletivo, é a busca do Um pelo Outro. Cada um de nós procura um outro desconhecido dentro si, assim como este país deve procurar outro, melhor, mais verdadeiro, mais fincado na própria essência, mas oculto pelo país oficial. Nossa consciência busca seu outro, que é o inconsciente, manancial de onde provém tudo aquilo de que é feita e de onde emana também sua renovação. Nosso ego busca seu outro, que é um ego não apoiado apenas na sombra e na persona, mas um ego sabedor de si e seus limites e portanto servidor do Self. A busca pelo outro é sempre uma busca arquetípica e para nós esse outro é o índio. Literal e simbolicamente. Cada um de nós carrega um índio dentro de si na medida em que carregamos um inconsciente e em que não somos apenas isto que mostramos uns para os outros e para nós mesmos. Há mais. Esse mais eu chamo de índio.
Quando retomamos a idéia de que na história do nosso país o índio é imediatamente catequizado e escravizado e que já em 1500 sua cultura (nossa alma ancestral) começa a ser destruída, vemo-nos diante de dois possíveis objetos de análise: nosso país e nossa psique. Percebemos então de imediato que nosso trabalho de resgate não vai poder ser feito numa vida, porque a destruição foi calamitosa e atingiu confins ainda não mapeados. Estruturou-se em nós uma consciência que perdeu o acesso a esse índio, ela não tem conceitos nem categorias para tanto e na verdade não sabe como acessá-lo. É preciso então admitir que ao lado desse nosso ser conscientizado e corporificado há uma alma penada, um fantasma de uma essência humana que não tem mais corpo porque não houve síntese. A alquimia só pode ocorrer em nós e como ela não acontece, o pedaço não integrado é um pária na nossa psique e na sua própria terra, é um exilado, uma alma descorporificada que não encontra corpo nunca mais.
Isso é uma perda, uma maldição, em nada menos trágica do que as que se abateram sobre Tebas ou Micenas; é um fator desagregante a operar sem trégua em nossa vida consciente e inconsciente. Está aqui bem ao nosso lado, sobre nosso ombro esquerdo, esse Outro nosso que não temos condições de incorporar. Não porque não queiramos, mas porque não há como. Há na verdade muito trabalho a ser feito até que isso seja psiquicamente possível. O conhecimento da alma ancestral, da cultura indígena e da mitologia precisaria se espalhar pelo Brasil inteiro, para que as novas gerações fossem educadas trazendo em seu imaginário todas as cobras, todas as onças e arco-íris, todos os espíritos da floresta, as maravilhas, os terrores e as metamorfoses que jazem desativados no fundo do inconsciente de todos nós. Quando esse mundo renegado for introduzido no imaginário das crianças, elas começarão a desenvolver naturalmente outros conceitos e outros valores e a partir de um certo ponto começarão a perguntar por que sim e porque não, por que o Brasil é assim, por que se faz um represa que acaba secando um rio (o Tocantins), por que a floresta está sendo destruída, por que os índios estão acabando - ou seja, que modelo de país é esse que nos subjuga. E esse questionamento todo não será o resultado de um doutrinamento ideológico e político, mas resultará sim do estado em que se encontrar um dia o imaginário da nova geração. Que se nutre de imagens e de nada mais.
Somos portanto possuidores de uma verdadeira Enciclopédia Britânica de imagens brasileiras e elas não estão alimentando nosso imaginário. Para falar com a alma é preciso alma, para falar com o imaginário é preciso imagens. Isso vai demorar. Não chegaremos a ver. Mas temos que fazer o que é possível, aqui e agora - no nosso caso de analistas, me parece, o que podemos fazer é trabalhar e criticar a consciência e mostrar-lhe novas possibilidades. Rever e repensar nossas categorias e nossa pseudo-mitologia. A maneira como a História do Brasil é ensinada é brutalmente anti-psicológica, além de ser falsa em muitos aspectos. É preciso ensinar que o Brasil não foi descoberto mas ocupado; que isto não era terra de ninguém, mas de alguém que permitiu que o invasor entrasse por achar que este que chegava era seu salvador, alguém que viria trazer-lhe o que faltava. Os índios abriram os braços e as pernas para receber o europeu. Que veio e fincou uma cruz na carne da religião indígena, como um punhal a atravessar-lhe a alma. O padrão de Porto Seguro, primeira marca da conquista - equivalente, numa analogia moderna, à bandeira americana plantada no chão poeirento da Lua pelo astronauta tornado herói - é uma pedra que traz esculpidas numa face as armas de Portugal e na outra a cruz de Cristo. Esses são os símbolos do começo de nossa História. O que significa psicologicamente essa união entre cruz e espada? Como olhar para a cena da Primeira Missa celebrada no Brasil, tema ufanista de nossa pintura acadêmica, e não perceber nela o começo do genocídio religioso? Quem é o verdadeiro Sacrificado dessa eucaristia? Não o corpo de Cristo, mas a alma indígena - e é precisamente essa idéia subversivamente nova e incômoda que a consciência coletiva deve agora abrigar em seu centro, já que por séculos a manteve negada e reprimida.
Urge perceber que a história dessa primeira missa e de todas as outras que se seguiram não é porém a alma indígena, como seria de se supor, por ser ela o verdadeiro objeto do sacrificado eucarístico. Transsubstanciada, a alma ancestral sacrificada, como a hóstia, seria pela própria coerência simbólica da missa redevolvida perene e fortalecida pela sua junção ao espírito de Cristo. Mas não. Não foi esse o mistério operado pela missa. A missa indígena é o inverso do processo de individuação, é um ritual para desfazer identidades. Na missa que Anchieta verteu para o tupi (Glória), os acólitos índios eram ensinados a pedir a Cristo, cantando:

Vem trazer-me a alegria,
trazer-me a tua virtude.
Que eu cumpra a tua palavra
e te ame no meu coração.
Tu te tornaste criança
porque querias viver.
Vem! E tomara que o mal
se afaste de mim para sempre.



Ou seja, a missa instaurava como verdade dogmática que o Mal era imanente à essência dos homens da terra e que só a religião do conquistador poderia redimi-los de tal sina perdida. Aí a cruz e a espada se casaram em perfeita e indissolúvel comunhão de bens.
O que as missas de todo o período colonial de 1549 em diante fizeram descer pela goela abaixo de uma população conquistada não foi a hóstia da valorização da alma, mas a de sua destruição. Foi a hóstia de um catolicismo defensivo, atacado pela Contra-Reforma, que reinstaura sempre o mesmo mecanismo de projeção da sombra. O catolicismo defensivo faz com que o homem ibérico só veja virtudes em si e projete toda a sua sombra sobre o índio, que passa a ser visto como um ser pecaminoso, criado pelo demônio, que não obedece a ninguém, sem lei e sem Deus, um ser inábil para o trabalho, ocioso e preguiçoso, um lascivo incorrigível, portador de todos os pecados, vícios e imperfeições de que é capaz a natureza humana - se é que humanos chegavam a ser. O invasor se sente assim eticamente legitimado a melhorar esse ser ignóbil, dando-lhe uma alma para que ao menos se eleve à categoria de homem. Os missionários jesuítas passarão então a reencontrar o mito da Criação, sendo eles obviamente Deus e os índios a argila a ser moldada à imagem e semelhança do criador. Este é o começo de nossa alma civilizada e esta é nossa pseudo-mitologia.
A pedagogia instaurada no Brasil nascente consistia em tomar um aprendente e lhe dizer, como o fez José de Anchieta, o patrono da educação: "esqueça quem você é, tenha vergonha de si mesmo, largue tudo, olhe para mim e queira ser como eu". Isso ainda está vivo no Brasil, porque quando olhamos para o Primeiro Mundo até hoje fazemos a mesma coisa, especialmente com relação ao pensamento de lá: "esqueça, esqueça, esqueça, olhe para o outro, queira ser igual ao outro, pense como ele pensa". A pequena escola jesuítica, em torno da qual formavam-se os primeiro núcleos habitacionais e para onde convergiam os índios cristianizados, é considerada o marco inicial da sociedade brasileira: meninos índios ensinados por missionários, casas de taipa, cercas, primeiras ruas. Mas a pedagogia que se praticava nessas escolas - São Paulo começou assim, 1554, nos campos de Piratininga - era da negação do ser indígena.
Esses fatos históricos todos precisam ser revistos e interpretados sob um novo prisma que nos ponha no encalço da alma perdida e da individuação abortada. As crianças de hoje precisam ouvir que ao chegar aqui a esquadra descobridora cometeu o primeiro ato anti-ecológico, a derrubada do pau brasil que nos nomeia. Portanto é em 1500 que se origina nosso atual problema de devastação florestal e de destruição da natureza. Uma imagem que expressasse essa idéia deveria aparecer na capa dos livros escolares patrocinados pelo Ministério da Educação até que fosse fixada e lançasse raiz, em substituição a toda uma galeria de imagens alienantes que trazemos no porão da mente e que só nos afastam de nós mesmos por nos manterem na inconsciência. A árvore pau brasil é um símbolo do nosso Self. Começamos derrubando a árvore que nos nomeia. O que isso tem a nos dizer sobre nossas próprias dificuldades de crescimento?
Os portugueses aqui chegaram com uma fantasia de Paraíso na cabeça, uma fantasia de encontrar mulheres nuas, fartas e disponíveis, em tudo diversas da mulher da Contra-Reforma, ambientadas numa natureza dadivosa onde tudo fosse permitido e nada fosse pecado - como aliás já lhes garantira o Papa Alexandre VI ao decretar que não havia pecado ao Sul do Equador, o que eqüivale a dizer que a sombra aqui podia correr solta. Um bom documento para ser interpretado num curso de formação de analista seria a carta de Pero Vaz de Caminha, a primeira a descrever a nova terra e sua gente, na qual claramente se percebe a profecia de que este país teria que agüentar sobre as frágeis costas uma descomunal e perigosíssima projeção de Paraíso - que ademais aqui se constituía para gozo e desfrute exclusivo do português, já que o mesmo de sua psique emanava, e jamais da imaginação do habitante da terra, para quem a floresta era sempre (como até hoje se constata) Paraíso, perigo e dureza ao mesmo tempo. O que iria então acontecer? Toda uma obra histórica, absolutamente masculina e fálica, que é a Conquista, será realizada por homens brancos de um lado e mulheres índias, de outro. As mulheres portuguesas nem mesmo nas caravelas embarcaram. Isso já há alguns anos me tem feito pensar no seguinte: a anima estava ausente na formação do Brasil. O português traz consigo uma imagem de mulher que não é a anima, mas uma fantasia que jamais será capaz de integrar, pois para tanto amadurecer era preciso. Porque se em lugar dessa falta de eros e de sentimento estivesse presente a verdadeira anima portuguesa, aquela que se manifesta nos sonetos de Camões, na lírica de Gil Vicente, nas cantigas de amor e de amigo, a maneira como os homens teriam se relacionado com as mulheres teria sido outra e em lugar do mero acasalamento, que foi o que ocorreu, uma junção psíquica poderia ter sido ensaiada. O que se deu entre o homem e a mulher desses dois mundos foi apenas uma miscigenação a nível biológico, físico e genético, mas não psicológico. sem absolutamente nada a ver com os refinados sentimentos descritos pelo grande Poeta das navegações lusitanas, sentimentos peninsulares que não chegaram a atravessar o Atlântico.
Somos portanto um caso histórico de anima ausente. Américo Vespúcio chega aqui e batiza a terra com a forma feminina de seu nome, mas não de sua alma. O nome "América" é sem dúvida uma projeção, mas a projeção de um vazio, de um buraco, que ao se materializar nega e destroi a verdadeira anima que lhe antecedia, porque toda a alma ancestral é feminina em sua própria não-racionalidade. Na hora que o princípio masculino chega aqui - quer dizer, a consciência crescentemente racionalizante do século XVI - ele não se junta ao feminino, mas nega-o ao mesmo tempo em que sobre ele projeta uma fantasia de feminino. Isso pode ser lindamente percebido nos mapas desenhados nessa época, por exemplo o que estabelece a demarcação das capitanias hereditárias. A linha vertical absolutamente reta do Tratado de Tordesilhas é cortada pelas horizontais igualmente retas que definem os lotes destinados aos primeiros capitães da terra. Aí temos Descartes subitamente implantado sobre a mata Atlântica! Na alma ancestral e feminina não há essa linha reta porque ela não funciona de modo cartesiano. A masculinidade psicológica que aqui desembarca chega para arrasar e o faz indo sempre diretamente ao alvo de sua ilimitada cobiça.
Há uma ausência do feminino contemporâneo dessa racionalidade porque também na Europa da Contra-Reforma (certamente não na cultura renascentista) ele estava reprimido. Portanto o que nos coube foi um feminino projetado. A nível sociológico o que vai decorrer disso é a criação de um povo a partir do acasalamento exclusivo de branco com índia. O primeiro híbrido é o primeiro brasileiro. Esses mestiços vão se multiplicando e gravitando em torno das aldeias que iam se formando, das primeiras capelas e escolas jesuíticas em Porto Seguro, no Arraial da Ajuda, em Salvador, Olinda, Vitória, São Vicente, São Sebastião do Rio de Janeiro, São Paulo de Piratininga. Os índios vão sendo atraídos e catequizados, as mulheres vão gerando filhos híbridos e esses primeiros mestiços circulam por esses arraiais criados pelos jesuítas como cristão convertidos, selvagens domesticados.
Essa é a proto-célula de nossa sociedade, o começo de nosso povo. E aí começa o drama de nossa identidade. Esse filho não pode se identificar nem com o pai, nem com a mãe. Uma índia que se acasalou com um branco e foi batizada não é mais aceita em sua aldeia de origem, ela saiu e para lá não pode mais voltar. E nem sua língua pode transmitir ao filho, fosse ela de que etnia fosse, porque a língua que seu filho falaria era o tupi, língua geral que se imporia sobre as centenas de línguas que então se falava no Brasil, e o português a seguir. A religião ela certamente não transmitiria ao filho, pois acabava de formalmente renunciar à que tinha quando forçosamente aceitava a do dominador, e se alguma mitologia hipoteticamente tentasse ensinar à nova geração, seria por certo o que mais ajudaria a esta na impossível tarefa de se descobrir a si mesma no novo ciclo histórico que se inaugurava.
A identificação com a figura materna era portanto inviável. E com o pai tampouco podia esse filho vir a identificar-se, uma vez que na Península Ibérica um mestiço, mameluco e bastardo não tinha lugar na sociedade de estamentos regidamente delimitados. Se um certo Dom Manuel de Faria resolvesse, depois de trinta anos de Brasil, regressar para Coimbra levando consigo na caravela os filhos que com várias índias tivera, estes não poderiam seguir carreira militar, nem religiosa, nem acadêmica, nem civil, e muito menos casar-se com moças da mesma condição social de seu pai - esses filhos brasileiros seria párias na terra paterna.
Quem é pois esse homem do Novo Mundo que não pode se identificar nem com pai nem com mãe? Nas palavras de Darcy Ribeiro, que melhor do que ninguém levou adiante esta reflexão, ele é um Zé Ninguém. Portanto a alma brasileira que se plasma a partir do contato entre duas grandes tradições é a alma do anônimo ninguém. Daquele que não sabe quem é e não pode ter uma raiz nem para o lado de cá, nem para o lado de lá, portanto um desarraigado a carregar consigo uma pesada problemática existencialista já no século XVI que nem Heidegger conseguiria equacionar.
No decorrer dos próximos três séculos, a essa crescente massa amorfa junta-se o triste contingente de africanos escravizados, igualmente arrancados de seu contexto e misturados entre si para que se anulassem as diferenças étnicas e culturais de origem. A segunda matriz brasileira, aquela resultante da união entre branco e negra e todas as possíveis demais combinações - mantido evidentemente à parte o ventre branco - gerará os mestiços mulatos que sofrerão a mesmo imposição existencial de não poderem saber quem são e de onde vêm. Mas de ventre branco também nasceram bastardos. Preocupados com a devassidão de costumes sexuais que tão cedo se implantava no Brasil, os jesuítas logo se apressaram a solicitar que a Companhia de Jesus em Lisboa despachasse para a Colônia mulheres brancas para que se garantisse um mínimo de eugenia. E eis que em meados do século XVI aporta no litoral a nau das prostitutas, desembarcadas após receberem a bênção a bordo. Com elas veio a sífilis para uma terra que até então desconhecia esse e outros males. E com elas as portugueses acasalarão como alternativa às índias por recomendação expressa dos missionários, que com esse gesto demonstram colocá-las no mesmo plano. Vemos portanto que a fantasia de feminino que os portugueses traziam em sua mente era mesmo a da puta. E as mulheres da terra tiveram que carregar essa projeção sobre a cabeça.
A Grande Mãe do Brasil é uma índia, esse é o nosso mito e nossa verdade histórica e psicológica. Temos que começar a considerar esse mito, e não apenas o da grande mãe babilônica, grega ou romana, que tanto se estuda nos círculos junguianos. De novo: se Erich Neumann conhecesse a mitologia brasileira, ele sem dúvida a teria incluído em seu trabalho sobre o tema. Já nosso consciência coletiva não reconhece mesmo a existência dessa mãe ancestral, que não aparece em produto algum de nossa cultura ou de nossas especulações pseudo-psicológicas de que escola for.
Mas para não perder o fio: diz Darcy Ribeiro, a meu ver de modo brilhante, que foi preciso, no século XIX, inventar-se um país chamado Brasil para que esse povo de Zé Ninguém pudesse dizer que pertencia a alguma coisa. Essa é a verdadeira questão por trás da factualidade ostensiva da proclamação da Independência pelo filho rebelde do monarca português, identificado com a jovem nação que pretendia ser levada a sério. É como se a psique coletiva, atingido aquele ponto de saturação, estivesse a pressionar no plano institucional pela formalização de um mínimo de persona coletiva, para assim assegurar a manutenção do vácuo psíquico interior de que éramos feitos. O povo brasileiro estava finalmente querendo ser dono de seu próprio nada. Ganhamos então um país internacionalmente reconhecido que nos permitia sermos o pouco que éramos. E é preciso olhar para o passado histórico nesses termos, porque só assim se entre em contato com aquela revolta no fundo do estômago que possibilita a recusa do status quo, que permite dizer: "não precisa necessariamente ser assim".
Contamos hoje com um dos plantéis genéticos mais ricos do planeta e com um dos complexos culturais mais diversificados que se possa conceber no mundo atual. O desafio que nos cabe é: será ou não possível extrair a quintessência alquímica dessa matéria prima? Será que nossa consciência já chegou a esse ponto? A alma ancestral brasileira é hoje uma alma penada; e aquela que se constitui a partir de 1500 sofre de um complexo nacional de inferioridade e está com sua energia criativa reprimida. Não tem sido mais possível sonhar no Brasil, um sonho coletivo compensatório das misérias de uma sociedade injusta que nos dissesse o que o inconsciente espera de nós e o que nos reserva como possibilidade histórica. Esse sonho foi esboçado nos anos 60, mas a repressão militar foi longe demais e traumatizou nossa ousadia onírica.
Gostaria de ir concluindo estas reflexões abordando dois temas: um mito que rapidamente comentarei e alguns sonhos que o grande pajé Kamaiurá Takumã teve em setembro de 1996 durante uma passagem sua por São Paulo (esses sonhos foram registrados pela antropóloga Carmem Junqueira, que em seu contato de muitos anos com o pajé tem estudado a sabedoria ancestral desses índios). Comecemos pelos sonhos. Takumã chega e é inicialmente hospedado numa casa de praia adjacente a uma área de mata onde já haviam sido vistas cobras. Ele foi alertado sobre o perigo, especialmente porque tinha consigo a mulher e dois filhos pequenos. Em sua primeira noite nessa casa ele sonhou: "Uma enorme cobra apareceu e tive medo. Mas fiquei calmo quando ela me disse que era ela quem tomava conta daquela mata, ela era o chefe das cobras. Disse então que eu não precisava ficar preocupado, porque nada de ruim aconteceria para nós". Eis aí a alma ancestral se manifestando sob forma de cobra, dando-lhe força e proteção para enfrentar cobras literais ou metafóricas de nosso mundo civilizado. Ela é o grande poder do inconsciente. É o verbete mais longo de qualquer dicionário de símbolos. Esta é uma cobra mãe, que comanda o próprio mal, fazendo-se presente de maneira tão viva no sonho de um índio preocupado com a selva dos brancos.
Mas vejamos o último sonho de Takumã imediatamente antes de seu regresso ao Parque Nacional do Xingu: "Um índio bem velho chegou perto de mim e me perguntou se estava tudo bem e se eu tinha conseguido alguma coisa. Respondi não, não consegui nada." A antropóloga que o hospedava ficou cismada ao ouvir esse sonho e perguntou o que era essa "alguma coisa". Ele respondeu: "um Fax". Os Kamaiurá estão organizando uma associação cultural e estão pensando em obter um aparelho desses. Esse sonho, quinze dias depois da cobra, mostra que o inconsciente de Takumã abarca desde a serpente arquetípica até a tecnologia de ponta. Nós junguianos estamos querendo sonhar mais é com a cobra. Duas linhas se cruzam: alguns de nós queremos entrar um pouco no lado de lá, e os índios no de cá. E a situação agora é de ou vai, ou racha, porque eles estão por um fio de desaparecerem por completo. Hoje há pouco mais de duzentos mil índios no Brasil, quando na época do Descobrimento havia de seis a dez milhões. Havia mais de mil línguas indígenas, tesouros irremediavelmente perdidos. Uma língua leva mais de mil anos para se constituir. Como um milagre, sua estrutura emerge inteira do inconsciente. Centenas de línguas já desapareceram no Brasil sem terem deixado o menor registro e continuam até hoje a morrer. Algumas são faladas por meia dúzia de pessoas e é provável que lá pela metade do próximo século já não tenha sobrado mais nenhuma. O trabalho dos que estão coletando mitos vivos nas línguas originais é portanto da maior importância, como por exemplo o que vem sendo realizado pela antropóloga Betty Mindlin.
Os índios estão perdendo a terra e a cultura. No final de 1996 os jornais publicaram a notícia de que um cartel internacional especializado na comercialização de gens humanos para pesquisa industrial está oferecendo amostras de sangue Suruí. Essas amostras genéticas serão vendidas por enormes quantias para indústrias farmacêuticas interessadas em pesquisar novas formas de combater a obesidade a partir da manipulação genética. Esse mal, tão difundido nas sociedades de consumo devido ao desequilíbrio das formas de alimentação é inexistente entre as populações indígenas. Se for criado um medicamente eficaz, baseado num princípio novo, certamente os lucros serão consideráveis - mas os Suruí não estarão por certo na lista de distribuição de dividendos. O sangue indígena, capaz de curar males da nossa civilização, continua a ser roubado - eis aí uma imagem absolutamente high-tech e contemporânea que merece nossa atenção. Os novos símbolos que denunciam o contínuo drama de nossa alma ancestral vazam até pelos jornais; mas a consciência coletiva ainda não sensível o bastante para elaborá-los enquanto tema de auto-conhecimento. Outra versão moderna da pirataria que imperava na época das grandes navegações leva o nome de Plant Medicine Corporation. Esta organização, voltada para assegurar royalties de substâncias curativas do Terceiro Mundo que podem mais uma vez dar lucro ao Primeiro, já patenteou o uso do cipó alucionógeno huasca. O tráfico de especiarias ou de pau-brasil ainda não terminou, ele se renova e se reatualiza a cada década e á como se esse contínuo saque à cultura milenar não tivesse ainda sido compreendido em todas as suas implicações - especialmente as psicológicas. Caso o Brasil, portanto, venha a adotar uma política de efetiva proteção de seus recursos naturais e culturais e decida produzir industrialmente o chá de huasca, que embora ainda não pesquisado em seus potentes efeitos serve de base para a organização de novas religiões (Santo Daime e União do Vegetal) e permite a um crescente número de adeptos a vivência imediata da transcendência do ego, será necessário que nosso governo pague royalties a uma corporação americana pelo uso de uma erva medicinal milenarmente nossa. Nos anos 60, um assunto desses inflamaria a retórica anti-imperialista dos movimentos de esquerda; hoje, já não mobiliza mais ninguém. E no entanto, eis aí, deslavado, mais um símbolo que reflete a degradação de nossa alma ancestral e que sintetiza o estado de inviabilidade histórica que ameaça essa parte cada vez menor de nossa população através da qual nos conectamos às raízes. Os índios ao final perderão suas terras, morrerão de doenças várias, serão assimilados como mão-de-obra não qualificada na camada mais baixa da sociedade brasileira. Não surgiu até hoje uma política indigenista que minimamente funcionasse e os defendesse em seus direitos mais elementares. Mesmo aqueles que honesta e sinceramente defendem os índios não sabem mais o que fazer em âmbito nacional.
Terminarei esta reflexão com um breve comentário sobre um dos mitos coletados por Betty Mindlin em sua pesquisa de campo. Desde que o ouvi não fiquei mais em paz. Algumas poucas vezes nos reunimos em meu consultório para falar dessas histórias, cada um a partir de seu ponto de vista. Não pretendíamos chegar a interpretações completas, mas antes a tocar o fundo do poço. Ainda não se tem uma metodologia adequada que dê conta de um material tão vasto, com tantas variações, e que permita uma leitura tanto poética quanto antropológica e psicológica. O método junguiano tem aí um enorme desafio à sua frente. Pessoalmente, não me afino com a metodologia de Lévy-Strauss, que só vê nos mitos diagramas cifrados de uma estrutura social abstrata e nunca da alma que os gerou e que portanto pode estar neles espelhada. O mito em questão pode ser intitulado "A cabeça voraz", "A cabeça voadora" ou ainda "A cabeça que perdeu o corpo" e é narrado em várias tribos. Vou reproduzir, resumidamente, a versão Makurap.
"Marido e mulher vivem em harmonia. Tudo vem bem em sua vida na aldeia. Toda noite eles dormem juntos na rede e toda noite a cabeça da mulher se desprende do pescoço e vai voando em busca de comida em outras aldeias. A cabeça se alimenta durante a noite e antes do dia raiar volta e se encaixa novamente no pescoço. Quando acorda, o marido vê a mulher a seu lado como sempre, mas com uma pequena gota de sangue no pescoço. Ambos ignoram o que a cabeça faz em seu vôo solitário noturno. Um dia, a mãe da moça entra na maloca e surpreende o genro ao lado do corpo decapitado da filha e imediatamente o acusa. O corpo é enterrado e a tribo toda se volta contra o marido, a quem só resta fugir. A cabeça volta e não encontrando mais o corpo que lhe corresponde, pousa no ombro do marido, onde se fixa como uma segunda cabeça. Este fica desorientado, porque quando quer uma coisa, a cabeça quer outra. Esta começa a entrar em decomposição. O homem tenta se livrar dela, mas ela resiste. Finalmente ele a arranca do ombro, foge pela floresta adentro e ela o persegue até que o bacurau acaba levando-a para o reino dos pássaros..."
Creio que as imagens deste mito absolutamente brasileiro e autóctone nos dizem que a busca de conhecimento é arquetipicamente vedada às mulheres. Por algum tempo é possível encontrar alimento novo, mas este não pode ser integrado. O tabu então determina que a mente da mulher deve ficar ali ao pé do fogo onde cozinha, é lá que sua vida transcorre e lá estariam seu sentido e seus limites. Encontrei uma idéia similar no trabalho de Alícia Fernández, uma psicopedagoga argentina que estuda as dificuldades das professoras em desenvolverem um pensamento próprio. Essa autora encontra no Gênesis a origem desse mandato proibitivo: Eva é punida por ter ousado aceitar da serpente o fruto da Árvore do Conhecimento proibido por Deus. O tema é amplo e pode nos levar longe, mas aqui não se trata apenas de um problema arquetípico da mulher indígena, e sim algo que diz respeito ao princípio feminino como um todo, manifestado tanto nas mulheres como nos homens, na cultura ou na alma.
Mas há também outra possibilidade de leitura. Houve um tempo mítico em que o princípio masculino e o feminino estavam equilibrados e em harmonia, mas a partir de um certo ponto o último não pôde mais se expandir porque não é mais possível integrar qualquer transformação. Nossa alma ancestral é como essa cabeça. Ela perdeu o corpo, que seria a materialização de uma nova síntese - o corpo não existe mais, foi enterrado, desintegrou-se no inconsciente - e busca outro, ao qual no entanto não pode ser conectar por uma impossibilidade natural. Não se trata aqui de uma analogia à figura alquímica do andrógino, porque nesta masculino e feminino estão diferenciados mas unidos na base, num corpo que pertence às duas cabeças. No nosso mito a imagem é outra, a situação psíquica é outra. Essa cabeça desencorpada é nossa alma perdida vagando penada pela noite da inconsciência sem poder se encaixar naquele corpo que seria nossa própria realidade humana aqui e agora, uma realidade física, corpórea, psíquica, cultural, social e política. O simulacro de integração do princípio feminino arquetípico - isto é, ancestral e imemorial - justamente por não ser uma verdadeira integração mas algo falso, forçado, postiço, apodrece e cria dissociação, obscuridade, fastasmagoria. A consciência que nos orienta a todos procura então loucamente se livrar daquele encosto maldito, para poder continuar unilateralmente estruturada em sua racionalidade dominante. E aquilo que poderia transformá-la e revitalizá-la desaparece do campo conhecido: dissolve-se no céu do Cruzeiro do Sul, de onde até hoje nunca mais voltou. Vejo portanto nesse mito o drama da separação não redimida dos opostos e é esse o grande problema arquetípico que nos afeta essencialmente a todos.



(Palestra proferida em outubro de 1996 no Moitará, encontro promovido em Campos do Jordão pela Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. Foram feitos alguns acréscimos. O autor é analista formado pelo Instituto C. G. Jung de Zurique, membro da Sociedade Internacional de Psicologia Analítica e da Sociedade Suíça de Psicologia Analítica. É sociólogo, advogado e Mestre em Ciências Sociais pela Universidade de Chicago. Publicou O Espelho Índio - os jesuítas e a destruição da alma indígena, Ed. Espaço e Tempo, 1988, e vários artigos.)


REFERÊNCIAS

1. FERNÁNDEZ, Alícia. La sexualidade atrapada de la señorita maestra. Ediciones Nueva Visión, Buenos Aires, 1992.
2. FREUD, Sigmund. Totem and taboo. Vintage Books, New York, s/d.
3. GAMBINI, Roberto. O espelho índio - os jesuítas e a destruição da alma indígena. Editora Espaço e Tempo, Rio de Janeiro, 1988.
4. GAMBINI, Roberto. "The soul of underdevelopment - the case of Brasil". The San Francisco Jung Institute Library Journal 57, vol. 15, n. 1, 1996. Publicado também nos Proceeding of the 13th International Congress for Analytical Psichology, Daimon, Zurich, 1996. Publicado também como "Die seele der unteertwicklung - der fall brasilien". Gorgo, Heft 30, Jahrgang 1996.
5. JUNG, Carl Gustav. "Conscious, Unconscious ond Individuation", in Collecte Works 9, Part I. Princeton University Press, Princeton, 1977.

6. JUNG, Carl Gustav. Aion. Rescarches into the Phenomenology of the Self. Collected Works 9, Part II. Princeton University Press, Princeton, 1951.

7. JUNG, C.G. "Mind and Eart". Collected Works 10. Princeton University Press, Princeton, 1978.

8. JUNQUEIRA, Carmen. Os índios de Ipavu. Ática, São Paulo, 1975.

9. LÉVI-STRAUSS - The Raw and the Cooked. Harper, New York, 1969.

10. LÉVI-STRAUSS - Anthropologie Structurale. Plon, Paris, 1958.

11. MINDLIN, Betty and Suruí Narrators. Unwritten Stories of the Suruí Indians of Rondonia. Institute of Latin American Studies, Austin, 1995.

12. MINDLIN, Betty. Tuparis e Tarupás - Narrativas dos índios Tuparis de Rondônia. Brasiliense, São Paulo, 1993.

13. NEUMANN, Erich. The Great Mother. Na Analysis of the Archetype. Princeton University Press, Princeton, 1963.

14. RIBEIRO, Darcy. Teoria do Brasil. Paz e Terra, Campinas, 1972.

15. RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil. Companhia das Letras, São Paulo, 1995.

16. VEJA, Garcilaso de la. Comentarios Reales. Origen e historia de los Incas del Peru (1609). Mercurio, Lima, 1970.

17. ZOJA, Luigi. Crescita e Colpa. Psicologia e limiti dello Svilupo. Anabasi, Milano, 1993.






segunda-feira, setembro 13, 2004

APONTAMENTOS SOBRE ALQUIMIA

Os estudos junguianos nos permitem, atualmente, uma maior compreensão da realidade. Assim sendo, "os escritos religiosos e literários, assim como as tentativas de protociências como a alquimia, a astrologia e a filosofia pré-socrática, podem ser compreendidos, atualmente, como a fenomenologia da psique objetiva".

O que apresentaremos a seguir são apontamentos retirados da obra "ANATOMIA DA PSIQUE", de EDWARD F. EDINGER, EDITORA Cultrix, São Paulo,1995. Fica, portanto, o convite para que o interessado que utiliza estes apontamentos, não deixe de consultar, dentro do possível, a fonte primária que, neste caso, é a utilíssima obra de EDINGER, supra citada.

EDINGER se propõe, continuando os estudos de JUNG, "demonstrar que o simbolismo alquímico é, em grande parte, um produto da psique inconsciente". O que o alquimista fazia era projetar na matéria o que ocorria na psique."... sua experiência, na realidade, era do seu próprio inconsciente".
As imagens alquímicas descrevem o processo da psicoterapia profunda que é idêntico àquilo que Jung denomina individuação.
O que torna a alquimia tão valiosa para a psicoterapia é o fato de suas imagens concretizarem as experiências de transformação por que passamos na psicoterapia. Tomada como um todo, a alquimia oferece uma espécie de anatomia da individuação. Suas imagens serão mais significativas para aqueles que tiverem tido uma experiência pessoal do inconsciente.

A OPUS
A idéia de OPUS é a imagem central da alquimia. O alquimista via-se como alguém comprometido com um trabalho sagrado: a busca do valor supremo e essencial. Diz um texto: "Todos os que buscamos seguir essa ARTE não podemos atingir resultados úteis senão com uma alma paciente, laboriosa e solícita, com uma coragem perseverante e com uma dedicação contínua". Esses são requisitos da função do EGO. A paciência é fundamental. Coragem significa disposição para enfrentar a ansiedade.
Uma característica proeminente da OPUS é o fato de ser considerada um trabalho sagrado que requer uma atitude religiosa.
Isto significa que devemos estar orientados para o SI-MESMO (SELF), e não para o EGO
Outro aspecto do OPUS é o fato de ela ser um trabalho amplamente individual. Os alquimistas eram decididamente solitários. A OPUS não pode ser realizada por um grupo ou comitê.
Uma outra característica: refere-se ao seu caráter secreto. Os alquimistas consideravam-se guardiães de um mistério vedado aos que não tinham valor. Da mesma forma que os Mistérios Eleusinos, o segredo alquímico tinha sua divulgação proibida.

A PRIMA MATERIA

O termo PRIMA MATERIA tem uma longa história, que remonta aos filósofos pré-socráticos.
Esses antigos pensadores estavam presos a uma idéia a priori, uma imagem arquetípica que lhes dizia que o mundo é gerado de uma matéria única original, a chamada primeira matéria. Embora divergissem no tocante à identificação dessa matéria primordial, concordavam com sua existência.
Para Tales de Mileto era a ÁGUA; PARA Anaximandro era o "ilimitado" o ÁPEIRON Anaxímenes dava-lhe o nome de "AR"; e Heráclito a considerava "FOGO".
Essa idéia de uma substância única original não tem fonte empírica no mudo exterior. Exteriormente, o mundo é sem dúvida uma multiplicidade. Portanto a idéia deve ser a projeção de um fato psíquico. De acordo com o pensamento da época, imaginava-se que a primeira matéria passara por um processo de diferenciação por meio do qual fora decomposta nos quatro elementos : TERRA,AR,FOGO e ÁGUA. Pensava-se que esses quatro elementos, em seguida, se combinaram em diferentes proporções para formarem todos os objetos físicos do mundo. Impôs-se à PRIMA MATERIA, por assim dizer, uma estrutura quádrupla, uma cruz, que representa os quatro elementos, dois grupos de contrários: terra e ar, fogo e água. Psicologicamente, esta imagem corresponde à criação do EGO a partir do inconsciente indiferenciado mediante o processo de discriminação das quatro funções: pensamento, sentimento, sensação e intuição.
Aristóteles elaborou a idéia da "prima matéria" em conexão com sua distinção entre matéria e forma. Segundo ele, a matéria elementar, antes de moldar-se ou de ter a forma imposta sobre si, é pura potencialidade - ainda não atualizada, porque o real não existe enquanto não assume uma forma particular. "a primeira matéria é o nome desse poder inteiramente indeterminado de mudança", segundo um comentador de Aristóteles.
Os alquimistas herdaram a idéia da "prima matéria" da antiga filosofia, aplicando-a às suas tentativas de transformação da matéria. Pensavam que, para transformar uma dada substância, era preciso, antes de tudo, reduzi-la ou fazê-la retornar ao seu estado indiferenciado original: "Os corpos não podem ser mudados senão pela redução à sua primeira matéria." E, outra vez: " As espécies ou formas dos metais não podem ser transmutadas em ouro ou prata antes de serem reduzidas à sua matéria essencial".
Esse procedimento corresponde de perto ao que ocorre na psicoterapia. Os aspectos fixos e estabelecidos da personalidade - rígidos e estáticos - são reduzidos ou levados outra vez à sua condição indiferenciada original, o que constitui uma das partes do processo de transformação psíquica.-
O problema da descoberta da ´prima materia´ corresponde ao problema da descoberta de material de trabalho na psicoterapia. Esses textos nos apresentam alguns indícios:
1 - Ela é ubíqua, está em toda a parte, diante dos olhos de todos.... Os humores e as reações pessoais insignificantes de todos os tipos são materiais apropriados para o trabalho psicoterápico.
2 - Apesar do seu grande valor interior, a ´prima materia´tem uma aparência exterior desagradável, razão pela qual é desprezada, rejeitada e atirada ao lixo.(Cf o Servo Sofredor em Isaías, no AT). Psicologicamente, isso significa que a "prima materia" está na sombra, naquela parte da personalidade tida como a mais desprezível. Os aspectos mais dolorosos e humilhantes de nós mesmos são os próprios aspectos a serem trazidos à luz e trabalhados.
3 - Aparece como multiplicidade - "tem tantos nomes quantas são as coisas " -, mas é, ao mesmo tempo uma. Essa característica corresponde ao fato de a psicoterapia, inicialmente, tornar a pessoa consciente de sua condição fragmentada, desconectada. De forma gradual, esses fragmentos vão sendo identificados como aspectos distintos de uma unidade subjacente.
4 - A "prima materia" é indiferenciada, sem fronteiras, limites ou forma definidos...

AS OPERAÇÕES

É deveras difícil compreender a alquimia tal como expressa nos escritos originais. EDINGER, o autor que seguimos de perto nesses apontamentos, apresenta as mais importantes operações alquímicas. Uma vez descoberta a ´prima materia´, deve-se submetê-la a uma série de procedimentos químicos a fim de transformá-la na Pedra Filosofal.
Não há um número exato de operações alquímicas... EDINGER apresenta sete dessas operações principais componentes da transformação alquímica, a saber:
CALCINATIO, SOLUTIO, COAGULATIO, SUBLIMATIO, MORTIFICATIO, PUTREFATIO, CONIUNCTIO.

1 - CALCINATIO
O processo químico da calcinação envolve o intenso aquecimento de um sólido, destinado a retirar dele a água e todos os demais elementos passíveis de volatização. Resta um fino pó seco. Exemplo clássico de calcinação, do qual surgiu o termo cal (calx= cal), é o aquecimento da pedra calcária (CaCO3) ou do hidróxido de cálcio para produzir cal viva (CAO, calx viva). Acrescentando-se água à cal viva, esta apresenta a interessante característica de geração de calor. Os alquimistas pensavam que continha fogo e por vezes a equiparavam ao próprio fogo.
A CALCINATIO é a operação do fogo. ( as outras são: solutio, água. Coagulatio, terra; e sublimatio, ar). Eis porque toda imagem que contêm o fogo livre queimando ou afetando substâncias se relaciona com a Calcinatio. Isso nos leva ao rico simbolismo do fogo. Para Jung o fogo simboliza a libido. Trata-se de uma afirmação bastante geral. Para conhecer as implicações do fogo e dos seus efeitos, devemos examinar a fenomenologia da imagem em suas inúmeras ramificações.
O fogo da calcinatio é um fogo purgador, embranquecedor. Atua sobre a matéria negra, a nigredo, tornando-a branca... Há muitas alusões ao simbolismo do fogo ( purgatório, inferno, etc.).Um interpretação psicológica do fogo é importante, inclusive para a correta interpretação dos textos bíblicos.
O fogo do inferno é o destino daquele aspecto do ego que se identifica com as energias transpessoais da psique e as utiliza para fins de prazer ou de poder pessoais. Esse aspecto do ego, identificado com a energia do SELF (SI-MESMO), deve passar pela calcinatio. Só se considerará o processo "eterno" quando se estiver lidando com uma dissociação psíquica que separe de modo inevitável o bem do mal e o céu do inferno. "Pelo elemento fogo, tudo o que há de impuro é destruído e retirado".
Em toda parte, associa-se o fogo com Deus, sendo ele, por conseguinte das energias arquetípicas que transcendem o ego e são experimentadas como numinosas. Cristo também é associado ao fogo.
De uma forma característica, o pensamento místico distingue dois tipos de fogo. Os estóicos falavam de um fogo terrestre e de um fogo etéreo. O etéreo corresponde ao NOUS, o divino LOGOS, aproximando-se da concepção cristã posterior do Espírito Santo. A Palavra de Deus é descrita como um fogo. (cf Jr 5,14; Jr 23,29; Tg 3,6).Em Pentecostes O Espírito Santo desce como fogo ( At 2,3).. Nos tempos primitivos, o fogo era o principal método de sacrifício aos deuses. O fogo conectava o divino com o humano.
A calcinatio é um processo de secagem. A cinza é alquimicamente equivalente ao sal. Na psicoterapia envolve a secagem de complexos inconscientes que vivem na água.
De modo geral, quando enfrentamos a realidade da vida, ela nos propicia grande número de ocasiões para a calcinatio do desejo frustrado... A calcinatio tem um efeito purgador e purificador. A substância é purgada de sua umidade radical.
Por fim a calcinatio produz uma certa imunidade ao afeto e uma habilidade para ver o aspecto arquetípico da existência Na medida em que estamos relacionados com o aspecto transpessoal do nosso ser, experimentamos o afeto como fogo etéreo (Espírito Santo) e não como o fogo terrestre - a dor do desejo frustrado.
(O material aqui exposto é resumo livre da Obra: EDWARD F EDINGER,ANATOMIA DA PSIQUE, O Simbolismo Alquímico na Psicoterapia, Editora Cultrix,São Paulo, 1995. )

2 - SOLUTIO

A operação de SOLUTIO é um dos principais procedimentos da alquimia. Diz um texto: "A solutio é a raiz da alquimia". Outro afirma: "Não faças nenhuma operação enquanto não transformares tudo em água". Em muitos textos, a OPUS inteira é resumida na frase: "dissolve e coagula". Da mesma forma como a Calcinatio pertence ao elemento fogo, a coagulatio elemento terra e a sublimatio ao elemento ar, a SOLUTIO pertence ao à água. Em termos essenciais, a SOLUTIO transforma um sólido num líquido. O sólido parece desaparecer no solvente, como se tivesse sido engolido. Para o alquimista, a SOLUTIO significava com freqüência o retorno da matéria diferenciada ao seu estado indiferenciado original - isto é, à prima materia. Considerava-se a água como o útero e a SOLUTIO como um retorno ao útero para fins de renascimento.
A matéria primeira ou prima materia é uma idéia que os alquimistas herdaram dos filósofos pré-socráticos. Em Tales de Mileto, bem como em muitos mitos da criação, a água é o material original a partir do qual o mundo é criado. Pensavam os alquimistas que uma substância não poderia ser transformada sem antes ter sido reduzida à prima materia... Diz um texto: "Os corpos não podem ser mudados senão pela redução à sua primeira matéria". Esse procedimento corresponde àquilo que se passa na psicoterapia. Os aspectos fixos e estáticos da personalidade não admitem mudanças. Eles são estabelecidos e têm certeza de seu caráter justo Para a transformação ocorrer, esses aspectos fixos devem primeiro ser dissolvidos ou reduzidos à prima materia. Fazemos isso por meio do processo analítico, que examina os produtos do inconsciente e coloca em questão as atitudes estabelecidas do ego.
Uma receita alquímica de SOLUTIO é:

 "Dissolve então sol e luna em nossa água solvente, que é familiar e amigável, cuja natureza mais se aproxima deles, como se fosse um útero, uma mãe, uma matriz, o princípio e o fim de sua Cida. E esta é a própria razão pela qual eles são melhorados ou corrigidos nesta água, porque o semelhante se rejubila no semelhante... Assim, convém te unires aos consangüíneos ou aos de tua espécie... E como sol e luna têm sua origem nesta água, sua mãe, é necessário, portanto, que nela voltem a entrar, isto é, no útero de sua mãe, para que possam se regenerados ou nascer de novo, e com mais saúde, mais nobreza e mais força".

O fato químico implícito neste texto é a capacidade de dissolução ou amálgama do mercúrio com o ouro e a prata, aqui chamados Sol e Luna. Com efeito, esse processo é a base do próprio método antigo de extração do ouro no minério bruto. Depois de pulverizado, o minério é tratado com o mercúrio, que dissolve o ouro. Separa-se então o mercúrio do ouro mediante a destilação a quente. Todavia, o texto considerado transformou esse processo químico numa imagem simbólica, pela superposição de um processo psicológico projetado.Sol e Luna representam, respectivamente, os princípios masculino e feminino quando se manifestam de forma concreta na personalidade no início do processo. Em outras palavras, a atitude consciente dominante do ego tem Sol como representante, sendo Luna a anima em seu estado atual de desenvolvimento. Dissolvem-se Sol e Luna na "água amigável" - isto é, o mercúrio -, equiparado ao útero materno e que corresponde à prima materia. A frase "assim, convém te unires aos consangüíneos ou aos de tua espécie" enfatiza o simbolismo do incesto.
Temos aqui uma exposição da descida no inconsciente, que é o útero materno de onde nasce o ego. Trata-se da prima materia que existe antes da diferenciação dos elementos pela consciência.
A SOLUTIO ocorre através de diversos procedimentos, sempre ligado à água ou símbolos correlatos. Às vezes há uma mistura de imagens, o que é comum na Alquimia. Por vezes aparece uma SOLUTIO combinada com a CONIUNCTIO. Sol e Luna são dissolvidos e, ao mesmo tempo, unidos. Isso corresponde, na Alquimia, asa figuras do rei e da rainha se banhando juntos na fonte mercurial.
A SOLUTIO tem duplo efeito: provoca o desaparecimento de uma forma e o surgimento de uma nova forma regenerada. Outras vezes a SOLUTIO pode tornar-se MORTIFICATIO. Isso é compreensível porque o que está sendo dissolvido experimentará a SOLUTIO como uma aniquilação de si mesmo. Heráclito diz: "Para as almas, é morte tornar-se água". Contudo a SOLUTIO leva ao surgimento de uma nova forma rejuvenescida. Sempre é a transformação do EGO inflado, hipertrofiado.
Às vezes o agente de dissolução é o princípio de EROS, VÊNUS OU AFRODITE. A mitologia de Vênus tem importantes relações com a água, vez que a deusa nasceu do mar. Seus perigosos poderes de solutio têm como representação sedutoras sereias ou ninfas aquáticas que atraem os homens, levando-os à morte por afogamento.
Exemplo de solutio fatal ocorre na estória de Hilas, o belo favorito de Heracles.Durante a expedição dos Argonautas, Hilas foi enviado para pegar água. Jogado num poço por ninfas aquáticas, jamais voltou a ser visto. Aqui, a imagem da solutio acompanha uma complicação homo-erótica, a ligação entre Heracles e Hilas.
No Antigo Testamento temos o caso de David com Bersabéia, exemplo de solutio erótica, onde aparece a combinação dos temas da mulher, do banho e da dissolução do masculino. (Cf. 2 Sm 11,2 ).Temos aqui a dissolução desse homem íntegro. No Livro de Daniel há a história de Susana, onde os dois anciãos se aproximam luxuriosamente de Susana enquanto ela se banhava; depois de terem mentido os dois encontram sua queda. Esses exemplos e imagens nos mostram que o amor e/ou a luxúria são agentes de solutio.
Nos mitos, a ameaça de um dilúvio mundial era usada para encorajar a percepção de Deus. Da mesma forma, uma ameaça de inundação vinda do inconsciente pode ter um efeito salutar sobre um ego presunçoso e produzir a consciência da necessidade de relacionamento com o transpessoal. Esse estado é expresso no Salmo 69:
" Salvai-me, ó Deus, pois a água tem entrado até a minha alma. Estou imerso num lodo profundo, onde não consigo firmar pé: entrei nas águas profundas, onde me submergem as ondas" (1, 2 - AV).
"Libertai-me do Iodo, para que não fique submergido: livrai-me dos que têm ódio, e dad águas profundas. Não deixe que me afoguem as ondas, nem que me devore o abismo, e que sobre mim não se feche a boca do poço". (14, 15, AV).
Os sonhos com inundações referem-se à solutio. Representam uma ativação do inconsciente que ameaça dissolver a estrutura estabelecida do ego e reduzi-lo à prima materia. As grandes transições da vida costumam ser experi~encias de solutio.

3 - COAGULATIO
Assim como a calcinatio é a operação do elemento fogo, a solutio a operação do elemento água e a sublimatio a operação pertinente ao ar, a coagulatio pertence ao simbolismo do elemento terra. Tal como ocorre com todas as operações alquímicas, a coagulatio refere-se, em primeiro lugar, à experiência no laboratório. O resfriamento pode transformar um líquido num sólido. Um sólido dissolvido num solvente reaparece quando o solvente é evaporado. Da mesma maneira, uma reação química pode produzir um novo composto sólido.

Em termos essenciais, a coagulatio é o processo que transforma as coisas em terra. "Terra" é, por conseguinte, um dos sinônimos de coagulatio. Pesada e permanente, a terra tem forma e posição fixas. Não desaparece no ar por meio da volatização, nem se adapta facilmente à forma de qualquer recipiente, ao contrário da água. Sua forma e localização são fixas; assim, para um conteúdo psíquico, tornar-se terra significa concretizar-se numa forma localizada particular - isto é, tornar-se ligado a um ego.

Costuma-se equiparar a coagulatio com a criação. Certos mitos da criação usam imagens explícitas de coagulatio. Na cosmogonia dos índios norte-americanos, aparece com frequência a afirmação de que o mundo foi criado por um "mergulhador da terra" que trouxe pedaços de lama das profundezas do mar. Esses mitos nos dizem que a coagulatio é promovida pela ação (mergulho, batedura, movimento de espiral). A exposição à tempestade e à tensão da ação, a batedura da realidade, solidifica a personalidade.
A subst^ncia a ser coagulado é o mercúrio fugido. Trata-se do Espírito de Mercúrio acerca do qual Jung escreveu amplamente. Ele é, em termos essenciais, o espírito autônomo da psique arquetípica, a manifestação paradoxal do Si-mesmo transpessoal. Submeter o Espírito de Mercúrio à coagulatio significa nada menos que ligar o ego com o Si-mesmo, realizar a individuação. Os efeitos menores do fugido Mercúrio aparecem nos efeitos de todos os complexos autônomos. A assimilação de um complexo é, portanto, uma contribuição à coagulatio do Si-mesmo.
No texto "O Turba Philosophorum" menciona três agentes da coagulatio: o magnésio, o chumbo e o enxifre. Magnésio significava, para os alquimistas, algo diferente do que representa hoje; era um termo geral que designava vários minérios metálicos crus ou misturas impuras. Psicologicamente, isso pode ser uma referência à união do espírito transpessoal com a realidade humana corriqueira. Talvez seja esse o sentido da observação de Jung relatada por Aniela Jaffé:Quando Jung, na casa dos oitenta anos, discutia com um grupo de jovens psiquiatras, com as surpreendentes palavras: 'E assim, vocês têm de aprender a se tornarem inconscientes de modo decente.'''
O próximo agente do coagulatio é o chumbo. O chumbo é pesado, sombrio e incômodo. É associado ao planeta Saturno, que carrega as qualidades da depressão, da melancolia e da limitação mortificante. assim sendo, o espírito livre e autônomo deve vincular-se com a pesada realidade e com as limitações das particularidades pessoais. Na prática analítica, esse vínculo com o chumbo costuma ser efetuado quando o indivíduo assume responsabilidade pessoal por fantasias e idéias inconstantes mediante sua expressão diante do analista ou de outra pessoa significativa. é surpreendente a diferença entre uma idéia falada. É a mesma diferença entre o mercúrio e o chumbo (Ver Figura Abaixo).
Águai Agrilhoada a um animal do solo.

O terceiro agente coagulador mencionado é o enxofre. sua cor amarela e seu caráter inflamável o associam ao sol. Por outro lado, seus vapores impregnam de mau cheiro e escurecem a maioria dos metais, razão pela qual é um aspecto característico do inferno. Jung sintetiza sua brilhante discussão do simbolismo do enxofre, em Mysterium Coniunctionis, com as seguintes palavras:
O enxofre constitui a substância ativa do sol ou, em linguagem psicológica, a força impulsionadora da consciência: de um lado,a vontade, melhor concebida como um dinamismo subordinado à consciência; do outro, a compulsão, uma motivação ou impulso involuntário, que vai desde o simples interesse até a possessão propriamente dita. O dinamismo inconsciente corresponderia ao enxofre, porque a compulsão é o grande mistério da existência humana. É o cruzamento da nossa vontade consciente e da nossa razão por uma entidade inflamável que está dentro de nós, manifestando-se, ora como um incêndio destruidor, ora como um calor que gera vida.
O enxofre é paradoxal: "Como corrupto, tem afinidade com o diabo, mas ao mesmo tempo se apresenta como um paralelo para Cristo". Portanto, se parte do significado do enxofre é desejo - procura do poder e do prazer - chegamos à conclusão de que o desejo coagula.
O desejo irrefreado é não apenas carcterística da carne - o aspecto coagulado da psique -, como, ao que se afirma, inicia o processo da encarnação. Por exemplo, encarnação e desejo se acham vinculados em O livro tibetano dos mortos. Quando está para encarnar-se e alojar-se num útero, a alma tem visões de casais em coito e dela se apossa num intenso desejo: se for de um homem, tem desejo pela mãe.
Sonhos de aviões em choque e de objetos cadentes costumam referir-se à coagulatio. Exemplo disso é o sonho de um homem que se encontrava no processo de desenvolvimento de uma relação mais autêntica com sua religião.
A experiência psicoterapêutica comprova a idéia de que o desejo promove a coagulatio. Para aqueles que já se acham movidos pelo desejo, a coagulatio não é a operação necessária. Contudo, muitos pacientes têm um investimento inadequado de libido, uma fragilidade em termos de desejo que por vezes beira a anedonia (vincula-se à palavra aneo, do grego Anaides, que não tem órgãos sexuais). Essas pessoas não sabem o que querem e temem os próprios desejos. Assemelham-se a almas não nascidas que, no céu, fogem da queda na realidade concreta. Elas precisam cultivar seus desejos - procurá-los, alimentá-los e agir de acordo com eles. Somente depois que o fizerem a energia psíquica se mobilizará para pomover experiência de vida e desenvolvimento do ego. Na psicoterapia, o surgimento de desejos de transferência indica com frequência o início de um processo de coagulatio, razão por que deve ser tratado com cautela.
O atrativo do desejo é a doçura da relização. O mel, na qualidade de exemplo supremo da doçura, é, portanto, um agente de coagulatio. O mel, graças às suas qualidades de preservação, era considerado pelos antigos como um remédio da imortlidade tendo sido usado na Eucaristia em algumas comunidades cristãs primitivas.
Nos sonhos modernos, referências a doces (balas, bolos, biscoitos, etc) em geral indicam uma tendência regressiva de busca infantil de prazeres, o que requer uma interpretação redutiva (mortificatio). às vezes, contudo, indicam uma autêntica necessidade de coagulatio. A coagulatio costuma suscitar resistências porque dá a impressão de ser moralmente ambígua, capaz de orivicar a dor e o conflito.
Desde a antiguidade manifesta-se a tendência de identificar a matéria com o mal, que alcançou extremos em algumas seitas gnósticas. A queda da alma do seu estado imortal para a forma corporal também costuma ser vinculada com um crime primal.
Segundo antiga lenda, havia um crime dos Titãs por trás da criação dos seres humanos. Enquanto brincavam com o menino dionísio, eles o desmembraram, ferveram e comeram - deixando apenas o coração, que Zeus resgatou. Como punição, Zeus os consumiu com o relâmpago e usou suas cinzas para criar a raça humana. Desse modo, a "terra tit^nica", que continha partículas espalhadas do divino Dionisio, tornou-se a argila da coagulatio humana - material produzido por um crime primal.
Prometeu, que ensinou os seres humanos a enganarem os deuses e a ficarem com a melhor parte do animal sacrifical para si mesmos, roubou o fogo para dá-lo às pessoas e por isso foi punido pela coagulatio sendo acorrentado a uma pedra. Da mesma maneiraa, Adão e Eva foram expulsos da condição paradisíaca, que precede o ego, depois do crime que cometeram ao comer do fruto proibido. Esses exemplos demonstram que o desenvolvimento do ego associa-se à experiência do mal, do crime e da culpa.
Assim, a consciência do mal que há em cada um - isto é, percepção da sombra - coagula. Se deseja contribuir para o mundo real, deve-se deixar um espaço para o mal. As pessoas santas ou espiritualizadas costumam ter vida curta. No passado, com frequencia morriam de tuberculose. É perigoso ser unilateral, mesmo na bondade.
Os sonhos frequentemente fazem alusão ao aspecto criminoso da condição do ego. A presunção de assumir a vontade e a consciência pode ser representada como um roubo. O atrevimento que consiste em seguir a autoridade interior é expresso como o assassinato de uma autoridade projetada, talvez como um parricídio. O ser um ego está inextricavelmente vinculado com a culpa, punida com a coagulatio - confinamen to dentro dos limites da própria realidade pessoal.
A coagulatio costuma ser seguida por outros porcessos, em geral pela mortificacio e pela putrefactio. Aquilo que se concretizou plenamente ora se acha sujeito à transformação. Tornou-se uma tribulação, que chama à transcedência.
O mais grandioso símbolo da coagulatio é o mito cristão da Encarnação do Logos Divino. Cristo nas ceu de uma virgem; isto é, encarnou por meio da terra pura. A Virgem Maria corresponde à noção alquímica de "terra branca foliada". Diz a alquimia: "Semeia teu ouro na terra branca foliada". A terra branca corresponde à cinza que sobreviveu `calcinatio. Trata-se da contradição, porque a terra é tipicamente branca. A terra negra do desejo do ego torna-se a terra branca que encarna o Si-mesmo.
A Cruz representa os quatro elementos de que é feito todo ser manifetso. Fixatio é um dos sinõnimos de coagulatio, havendo entre os alquimistas imagens da serpente mercurial fixada à cruz ou transfixada numa árvore.
Do ponto de vista do simboliosmo da coagulatio, compartilhar do alimento eucarístico significa a incorporação, por parte do ego, de uma relação com o Si-mesmo.

domingo, agosto 22, 2004

O herói dentro de nós

A saga de Hércules, que foi imortalizado ao realizar com sucesso 12 árduas tarefas, é uma das passagens mais conhecidas da mitologia da antiga Grécia. O herói enfrentou a ira dos deuses e lutou contra seres horríveis para transcender sua condição de simples mortal. "Hércules não aceitava a imperfeição de sua condição humana e saiu em busca de algo maior, transcendental, assim como muitos de nós fazemos hoje. À primeira vista, o mito parece apenas um relato fantástico, mas por meio dele podemos descobrir formas de superar desafios", acredita o professor Efraim Rojas Boccalandro, coordenador do curso de mitologia grega da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
"O mito de Hércules ensina que nós também podemos vencer nossos defeitos e nos tornar pessoas melhores, mais éticas e dignas. Esse caminho exige esforço, persistência e coragem, principalmente para encarar monstros internos, como a agressividade, o egoísmo e a falta de respeito ao próximo", interpreta Viktor Salis, grego radicado em São Paulo, especialista em mitologia grega e autor do livro Os Doze Trabalhos de Hércules para o Caminho do Herói em Busca da Eternidade (edição do autor).

Superar obstáculos
O herói era filho de Zeus, deus supremo, e de uma mortal. Por isso, tornou-se alvo do ódio e das armadilhas da ciumenta Hera, esposa de Zeus, que não poupou esforços para destruir Hércules. Foi por causa dos estratagemas de Hera que o herói se viu obrigado a realizar os 12 trabalhos. E, embora tenha alcançado grandes vitórias, Hércules amargou também várias derrotas. "O que o distingue é sua maneira de encarar os desafios. Em vez de imobilizá-lo, os obstáculos funcionavam como alavanca, levando-o a se superar. É outra lição que podemos aprender", afirma a paulista Ana Figueiredo, colaboradora da Fundação Joseph Campbell, instituição americana dedicada ao estudo dos mitos.
Apesar de Hércules ser retratado como um homem extremamente musculoso, muitas de suas vitórias foram fruto não de sua força, mas do uso da inteligência e da sabedoria.

Doze tarefas
Os desafios enfrentados por Hércules são metáforas das diversas fases do processo de desenvolvimento interior. Eles estão relacionados aos 12 deuses do Olimpo, o panteão divino dos gregos, e com os 12 signos do zodíaco, que representam forças cósmicas. Para o especialista em mitologia Viktor Salis, os trabalhos podem ser divididos em quatro etapas.
Os três primeiros tratam da violência, dos vícios e da criação de limites. O quarto, o quinto e o sexto estão relacionados com a descoberta dos talentos, com ritos de purificação física e mental e com a transformação do instinto em intuição. O sétimo, o oitavo e o nono trabalhos, por sua vez, falam da sexualidade e da arte de amar. Enquanto o décimo, o décimo primeiro e o décimo segundo são dedicados à criação, ao desapego e à conquista da espiritualidade.
Conheça a seguir as façanhas do herói:

1 O leão de Neméia: o aperfeiçoamento começa dentro de nós
O desafio de Hércules foi vencer um leão de pele invulnerável, que devastava rebanhos e devorava todos os que tentavam matá-lo. Aconselhado por Atena, deusa da sabedoria, a não usar a força, o herói estrangula a fera em sua caverna. "Nesse teste, Hércules ensina que a luta pelo aperfeiçoamento começa dentro de nós. Os leões de hoje são a violência e a agressividade e o desafio é buscar a harmonia, procurando antes de mais nada nossos recursos internos", explica o mitólogo Viktor Salis.

2 A hidra de Lerna: combate aos vícios
Hércules teve de destruir um monstro de nove cabeças que soltavam fogo: oito renasciam quando cortadas e a nona era imortal. O herói decepou as oito cabeças enquanto um amigo as cauterizava com fogo. A nona foi enterrada, mas vigiada eternamente por Hércules. "As cabeças simbolizam os vícios. Lutamos contra eles, mas, como são imortais, se não estivermos atentos, renascem. Além dos vícios físicos, como drogas e álcool, temos de combater os vícios éticos, como a ganância", acredita Salis.

3 O javali de Erimanto: vencer o egoísmo
Foram necessários dois anos para Hércules capturar um javali feroz que devastava tudo por onde passava. Esse trabalho está relacionado ao aprendizado da vida em sociedade, segundo Salis. "O javali é um monstro sem fronteiras, que não respeita limites. Cada um de nós tem dentro de si essa fera, que é preciso dominar, aprendendo a reconhecer nosso espaço e o das outras pessoas. É um teste para vencer o egoísmo e a tendência a achar que o mundo gira em torno do próprio umbigo", interpreta o especialista.

4 A corça cerinita: cultivar a delicadeza
A missão de Hércules era capturar viva uma corça extremamente veloz, com chifres de ouro e cascos de bronze, que pertencia a Ártemis, deusa da caça. Orientado por Atena, o herói dominou o animal sagrado segurando-o pelos chifres. "Os chifres representam a iluminação, e os cascos de bronze, o mundo material. O aprendizado nesse trabalho é substituir os impulsos por qualidades mais nobres, como sabedoria, delicadeza e paciência", explica Efraim Rojas Boccalandro.

5 Os estábulos de Áugias: purificação do sentimentos
Hércules se ofereceu para limpar em um só dia os currais imundos de um rei que possuía um rebanho numeroso. Desviando dois rios para os estábulos, Hércules cumpriu a promessa, que parecia impossível. Segundo Viktor Salis, nossa sujeira acumulada é composta por raiva, angústia e emoções negativas. "Para fazer uma limpeza interior, devemos observar diariamente e com honestidade a qualidade de nossas reações e emoções", recomenda.

6 Os pássaros do lago Estínfalo: recuperar a lucidez
Para derrotar aves antropófagas que tinham penas de bronze e as lançavam como flechas, Hércules atordoou-as com o som ensurdecedor de um címbalo. "O teste de Hércules é igual ao de qualquer um de nós: conseguir reconhecer e usar a intuição. Os pássaros simbolizam a falta de lucidez e o som é nossa voz interior. O trabalho em excesso, a pressa e o estresse são pássaros que nos atordoam. O antídoto para essa situação é nos aquietarmos para ouvir o que verdadeiramente queremos fazer", acredita Viktor Salis.

7 O touro de Creta: governar os instintos
Nesse trabalho, Hércules domou o furioso touro de Creta, ao qual eram oferecidos jovens em sacrifício. Essa tarefa chama a atenção para o controle dos instintos, especialmente da sexualidade. "Hércules precisava manter o animal vivo: tinha que domar e governar seu instinto, mas não matá-lo. Em um mundo com tantos apelos eróticos e sensuais, esse é um desafio para todos, em especial para os jovens", diz Salis.

8 As éguas de Diomedes: a arte de amar

Hércules teve de enfrentar quatro éguas que se alimentavam de náufragos estrangeiros. Como no trabalho anterior, esse é mais um passo para o herói se aperfeiçoar na arte de amar. "Essa é uma iniciação: aprender a entregar o coração com sinceridade, não se deixar levar pela tentação, movido apenas pela atração física", afirma Viktor Salis.

9 O cinturão de Hipólita: a coragem de ser autêntico
A missão do herói era conseguir o cinturão da rainha das amazonas, mulheres conhecidas por sua bravura. Mas não poderia obtê-lo pela força: precisaria ganhá-lo conquistando o coração da guerreira. "Esse trabalho fala sobre a importância de construirmos laços afetivos duradouros", diz Viktor Salis. "Ensina que a arte de conquistar uma pessoa não se faz pela força nem criando ilusões e falsas aparências, mas pelo respeito ao outro e pela coragem de mostrar quem verdadeiramente somos."

1O Os bois de Gerião: a lição do desapego
Hércules empreendeu uma grande viagem para derrotar o rei Gerião e se apoderar de seus bois. Enfrentou também o gigante Anteu, invencível porque, cada vez que tocava a terra, recobrava as forças. Para derrotá-lo, ergueu-o no ar. "Essa é uma lição de desapego, sobre derrotar a cobiça e o materialismo. Gerião e os bois simbolizam as posses. A verdadeira riqueza, que é eterna, está dentro de nós. São nossos sentimentos e valores", explica Salis.

11 Os pomos de ouro do jardim das Hespérides: descoberta de talentos
O herói teve que superar vários percalços para obter os frutos de ouro de uma árvore maravilhosa, que representam a força fecunda e criadora dos homens, protegidos por um dragão imortal. "Assim como Hércules teve que ir aos extremos do mundo para descobrir esses frutos, nós também precisamos fazer uma viagem a nosso mundo interior para descobrir nossos talentos e potenciais, que são os pomos de ouro", diz Salis.

12 A captura de Cérbero: valorizar as qualidades da alma
O desafio era descer ao inferno para vencer Cérbero, cão de três cabeças que guardava o Mundo Inferior. O herói agarrou o animal pelo pescoço e não o soltou até que concordasse em acompanhá-lo. "Esse trabalho fala da imortalidade. Ensina que o corpo pode perder o viço, mas a alma deve irradiar cada vez mais a beleza construída ao longo dos anos. É um ensinamento importante para estes tempos, em que o envelhecimento e as transformações do corpo não são aceitas com naturalidade", conclui Salis.

Texto: Fanny Zygband: Greg