terça-feira, dezembro 02, 2003

Osíris e Íris

Seth governava toda a terra vermelha do Alto Egito. Nestas terras o antílope saltava e, meio a vegetação escassa, cães selvagens percorriam a areia fria sob o clarão da lua lua e javalis revolviam com o focinho, o chão entre as rochas. Ali os homens se agrupavam, banhando-se no sangue vermelho da caça, cobriam a cabeça com peles de animais e se escondiam das rajadas de areia. Seth casou-se com a sua irmã Neftis, mantendo a tradição iniciada pelos seus antecessores divinos. Mas Neftis não ficara satisfeita com o matrimônio, porque ela amava Osiris.
A raiva de Seth afastava-o cada vez mais do conforto da esposa. Ele deixava Néftis muito tempo sozinha. Todas as noites ela entrava furtivamente no jardim do palácio de Ísis e Osíris para ter o consolo de estar perto dos irmãos, para ouvir os belos cantos de Ísis. A cada dia que passava, Néftis procurava tornar-se mais parecida com Ísis. Fazia pequenas tranças em seus cabelos perfurmava-os com óleo de Lótus e a pele com cinabre. Pediu à Heket, a deusa-rã, guardiã das transformações para que todos a confundissem com sua irmã.
Vestida como Ísis, chegou sozinha ao jardim do palácio onde sentou e chorou e bateu no peito. Foi ali que Osíris a encontrou, triste e bela. Confundindo-a com sua irmã e esposa, Osíris deitou-se com ela.
A barriga da deusa Néftis ficou dura e redonda, e para que Seth não desconfiasse de sua gravidez, ela se trancou no quarto e impedia que qualquer um viesse visita-la. Foi então que, certa noite sob a lua cheia, Néftis deixou o palácio e seguiu para o deserto. Lá, agachada entre as rochas, sozinha, em meio aos uivos dos lobos ela deu a luz a um menino. Não pôde, contudo, leva-lo para casa, temendo que Seth matasse a ambos. Assim, deixou o menino no deserto coberto apenas por um cobertor. Pela manhã, ao trazer a bandeija com leite e frutas, a criada notou que a barriga de Néftis estava mole, não ouvindo choro de criança, pererbeu logo o que acontecera. Correu até o rio para avisar Ísis. Embora a criada não o dissesse, Ísis pôde ver a criança em seus olhos, e percebeu que era o filho de Osíris - o único filho de Osíris vivo.
Ísis chamou alguns galgos que, farejando, encontraram a criança. A deusa o banhou no rio e o protegeu com feitiços, levando-o para o palácio e criando-o como se fora seu próprio filho.
Como Ísis não tinha leite, deu a criança para um dos galgos femeas que acabara de dar à luz, para que esta o amamentasse. A criança, que fora chamada Anúbis ("o iniciador do dia"), cresceu forte e com instintos caninos.

A vingança de Seth
Seth continuou remoendo sua raiva e passou boa parte do tempo no deserto reunindo sua tribo de 72 companheiros. Entre eles estava Aso, a rainha da Etiópia, uma bela feiticeira cujos poderes, dizia-se eram tão grandes quanto os de Ísis. Foi Aso que, em sonho, entrou no quarto de Ísis e Osíris e anotou as medidas exatas do corpo do deus-homem.
Nesta época Osíris providenciou uma grande festa em comemoração aos 28 anos de sua chegada ao Egito. Sabendo da festa, Seth elaborou um plano. Modelou uma bela caixa de cedro do tamanho e formato de um homem, revestiu-a com folhas de ouro e a enfeitou com pedras de turquesa.
Em meio à comemoração, chegaram Seth e seus 72 companheiros vestidos com peles de animais, enquanto todos bebiam e dançavam no palácio, Seth trouxe seu presente e anunciou que, a caixa seria dada à quem coubesse deitado dentro dela. Os convidados provaram a caixa, um a um, mas nenhum dava o tamanho adequado, - Todos eram menores que a caixa - de maneira que chegou a vez de Osiris e ele sim, preenchia completamente o buraco da caixa, visto que Seth já a havia confeccionado com as medidas exatas obtidas por Aso.
Os 72 conspiradores correram em direção do esquife, fecharam a tampa e a pregaram; depois soldaram as beiradas com chumbo derretido. Osíris gritou e se debateu para sair, mas sem resultado. Depois lançaram o rei, em seu esquife, ao Nilo e o rio arrastou a caixa e a sua carga para o mar.

A busca de Ísis
Ísis saiu em perseguição do baú por vários meses e, suja e rasgada da dura jornada que a fez atravessar vários países, chegou finalmente a Biblos, na costa da Síria, onde se dizia que o esquife se desviara para a terra. Lá lhe contaram que, quando o caixão tocou a terra pela primeira vez, subitamente brotou uma tamargueira que prendeu em seu tronco a arca. Já dentreo do caixão, agora na árvore, Osíris estava duplamente aprisionado.
Ísis, então, foi a procura da árvore. Vários dias se passaram até que ela o encontrou e ali ficou em vigilha.
Por fim, Melcader, um rei sírio, e seu exército passaram por ali. O rei admirou tanto a altura e a largura e o vigor da árvore que decidiu por derruba-la e transforma-la em uma coluna central de seu palácio. De nada adiantaram os gritos de Ísis, os soldados do rei afastaram-na e derrubaram a árvore levando-a com eles.
Ísis, porém, seguiu o rastro do veículo e chegou, depois de caminhar por várias semanas, e por fim, chegou ao palácio. Quando Ísis viu a coluna central do palácio, ergeu suas longas asas e mostrou sua verdadeira face de deusa para o rei Melcader e a rainha Astarte. Comovidos com a história que Ísis lhe contara e com o sofrimento que passara, os reis Melcader e Astarte derrubarama coluna e cortaram a madeira que envolvia o caixão. Em retribuição Ísis passou um tempo na casa dos reis para cuidar de seus filhos e lançar-lhes feitiços de proteção e de cura.
Os filhos e filhas do rei e da rainha siria tanto se apegaram a deusa que, quando ela partiu, o filho mais velho do casal real, Maneros, partiu com Ísis em sua longa jornada de volta ao Egito.
Depois de muito tempo no mar, finalmente o barco com Ísis chegou ao Egito (em Abidos, terra dos mortos). Maneros, filho mais velho de Melcader, não resistiu a viagem e morreu sem nunca pisar nas terras de Ísis, sua amada.
Abrindo o caixão, Ísis dançava e chorava lamentando a morte do irmão, do amado, do marido. Enquanto dançava e cantava seus cantos de amor, os grandes portões do Céu se abrirram, e as estrelas circulantes giraram tecendo um novo destino para Osíris, fazendo para ele uma nova coroa de rei.
Os deuses comovidos ressusitaram Osíris que deitou-se por mais uma noite com sua amada. Seu corpo, porém, ainda fraco pela morte sofrida, não era mais como antes e por isso Ísis escondeu o corpo fraco do irmão em um emanharado de rochas, um labirinto de pedras brancas. Então deixou-o ali apenas por uma noite e apressou-se em procurar Anúbis e Néftis para ajuda-la a Salvar Osíris.
Seth, senhor da noite e das trevas, caçava javalis por perto de Abidos sob a luz do luar. Armado de Arco e flechas e com sua inseparavél adaga, Seth aguçou a audição e farejou o vento. Setiu um odor familiar e foi conferir o que era e logo chegou ao local onde Osíris estava guardado.
Furioso o deus Seth golpeou, com sua adaga, várias vezes o corpo do irmão, separou a cabeça do corpo. Cortou fora os braços, as pernas e o pênis. Arrancou um por um os ossos das costas. Esquartejou o irmão como um animal morto e enfiou os pedaços num saco e atirou nas águas do Nilo.
Sentindo o cheiro da morte, Anúbis avisou Ísis e Néftis e, juntos, correram até o rio. Ali, nas margem do Nilo, em Abidos, as deusas avistaram a cabeça cortada de Osíris.
Ísis, no entanto, não estava disposta e entregar seu amadi irmão à morte mais uma vez, pois ela já sabia estar grávida e queria que Osíris também o soubesse. Numa caverna próxima, Ela Anúbis e Néftis esconderam a cabeça de Osíris e decidiram que, juntos, iriam percorrer todo o Nilo, desde o Alto Egito até o Mar, à procura dos pedaços do deus morto, para que pudessem faze-lo reviver novamente. Porém seria impossível reunir todas as partes do Corpo de Osíris. Um peixe, vendo o pênis do deus boiar sob as águas azuis do Nilo, abocanhou o órgão gerador de Osíris e mergulhou para o fundo do rio. Sobeck, o deus crocodilo, viu tudo, e para proteger as deusas na jornada infrutívera, seguiu a embarcação que era guiada por Anúbis. Em cada cidade onde eram encontradas partes de Osíris, eram erguidos grandes templos em sua homenagem, Assim Ísis protegia os fragmentos do marido e confundia Seth, pois esse acreditava que Ísis deixara os pedaços em algum lugar dentro dos templos.
Quando finalmente todas as partes de Osíris, exceto o falo, foram encontradas, Ísis, Néftis e Anúbis voltaram para Abidos. o deus Toth foi o único a ve-los deixar o barco e entrar na caverna onde jazia a cabeça de Osíris, ele, comovido, desceu até a Terra e juntou-se ao grupo na empreitada de ressuscitar o seu irmão, qual ele mesmo ajudou a nascer.
Como o peixe engolira o pênis de Osíris, Ísis fez outro de cedro e ouro, e dizendo palavras de poder, a deusa tentou ressuscita-lo. Não adiantou. Toth, o deus escriba, senhor da inteligencia, o deus lua, chamou Anúbis para ajudá-lo em sua tarefa: juntaram tiras de linho, encheram Osíris de flores e óleos, amarraram as tiras e ataram com cordões. Osíris fora aniquilado e agora duma vez. Osíris agora iria reinar o reino dos mortos e ali lutaria contra Apófis.

Ísis Aprisionada
Certa manhã, quando Ísis e Néftis ofereciam pão ao Ka (a alma que cria e preserva a vida) de Osíris, foram capturadas pelos homens de Seth e amarradas como escravas. Seth levou Ísis para uma caverna escura e ali a trancou, ao seu lado colocou uma roca e novelos de linho, deu-lhe um cadável como marido e obrigou-a a trabalhar dia e noite, fiando e costurando, sem descanso. A lua no céu crescia e minguava, e a barriga de Ísis ficava cada dia mais redonda.
Toth, que também conhecia o tempo, começou a se preocupar com o aprisionamento da irmã e, com o propósito de liberta-la, enfiou sua esposa Seshat (deusa que registra o destino dos humanos) e Maát (deusa da verdade e justiça) disfarçadas de tecelãs. Num gesto abrirram passagem para vários escorpiões que, com suas tenazes cortaram as cordas que amarravam a deusa. Aqueles que tentaram detê-la, os escorpiões matavam com picadas fatais, os capagas de Seth morreram um a um cor a dor do veneno.
Ísis caminhou do planalto arenoso até o delta e caindo em meio a touceira de papiro foi parteira de si mesma. Nascia Hórus, o menino dourado, o deus falcão.
Com a presença devota da sua mãe, Hórus, foi educado no maior dos segredos, preparando-se com esmero e paciência. Porém, o sucessor do rei assassinado, ficou com Ísis apenas nos seus primeiros cinco anos de vida. Abendo que não podia ficar no Delta, pois Seth já sabia do nascimento de Hórus, Ísis, como mãe propetora, partiu para os confins do Egito deixando seu filho aos cuidados da deusa-naja Renenutet. Assim Seth nunca encontraria o filho de Osíris, pois chamais acreditaria que uma mãe tão devotada como Ísis deixaria seu filho aos cuidados que outra pessoa ou deus.

Osíris
O deus supremo do Egito; filho de Seb (saturno), fogo celeste, e de Neith, matéria primordial e espaço infinito. Isso o apresenta como o Deus existente por si mesmo e auto-criado, a primeira divindade manifestada (nosso terceiro logos), idêntico a Ahura Mazda e outras "Primeiras Causas" .
Assim como Ahura Mazda é uno com os Amshapends, ou a síntese deles, Osíris, a Unidade Coletiva, quando diferenciada e personificada, converte-se em Tífon, seu irmão, Ísis e Neftis, suas irmãs, Hórus, seu filho, e seus outros aspectos.
Os quatro aspectos principais de Osíris eram: Osíris Ftah (Luz), o aspecto espiritual; Osíris-Hórus (Mente), o aspecto intelectual monástico; Osíris-Lunus, o aspecto "lunar" ou psíquico ou astral; Osíris-Tífon, o aspecto demoníaco ou físico, material, e por conseguinte passional, turbulento. Nestes quatro aspectos, Osíris simboliza o Ego dual, isto é, o divino e o humano, o cósmico-espiritual e o terrestre.
Dos numerosos deuses supremos, este conceito egípcio é o maior e mais significativo, pois abrange todo o campo do pensamento físico e metafísico.
Como divindade solar, tem sob si doze deuses menores, os doze signos do Zodíaco. Embora seu nome seja "O Inefável", cada um de seus quarenta e dois atributos tinham seu nome e seus sete aspectos duais completavam o numero 49, ou seja, 7 x 7; os primeiros são simbolizados pelos quatorze membros do seu corpo ou duas vezes sete.
Assim, o deus está fundido no homem e o homem é "deificado" ou convertido em um deus.
De um ponto de vista mais elevado, Osíris é a própria Divindade, o Deus "cujo nome é desconhecido", o senhor que está sobre todas as coisas, o Criador, o Senhor da Eternidade, o "Único", cuja a manifestação material é o Sol e cuja manifestação moral é o bem.


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