sábado, maio 29, 2004

A TEOGONIA DE HESÍODO

E então, primeiramente, surgiu Caos...
Hes.Th. 116
A Teogonia, "o nascimento dos deuses", se compõe de 1022 versos hexâmetros e detalha a origem e genealogia dos deuses gregos. Tradicionalmente atribuído a Hesíodo, a data de composição é tão imprecisa quanto a data em que o poeta deve ter vivido.

A idéia em si não é original, pois já havia sido desenvolvida pelos egípcios (séc. -XXIV), pelos babilônios (-2000/-1500) e pelos hititas (-1400/-1200) muitos anos antes. Hesíodo, no entanto, foi o primeiro a sistematizar os antigos mitos da criação e a organizar os mitos gregos numa seqüência lógica.

Argumento
Não há nenhuma intenção dramática ou enredo, e sim um plano expositivo. Hesíodo descreve a criação do mundo e a seguir relaciona, cronologicamente, cada uma das gerações divinas. O argumento gira em torno de três temas básicos:

1. a criação do mundo;
2. genealogia das gerações divinas;
3. a ascensão de Zeus ao poder.


Segundo a cronologia hesiódica, os deuses olímpicos seriam os da 3ª geração, e eram governados por Zeus, cuja história se desenvolve em boa parte do poema. Hesíodo, no entanto, vai além da simples enumeração e habilmente entremeia a árida sucessão de deuses e deusas com raros, curtos mas elucidativos trechos dos antigos mitos.

Resumo do poema
O poema tem 1022 versos e ocupa 39 páginas da edição de Evelyn-White (1920), na qual se baseia este resumo. O narrador é o próprio poeta.
após uma invocação às Musas, Hesíodo relata como as deusas inspiraram seu canto ao cuidar de ovelhas perto do Monte Hélicon (1-35); a origem das Musas, filhas de Zeus, é também contada (36-115).

Segue-se a origem dos primeiros deuses, que personificavam os elementos primordiais do Universo (116-153): Caos, o vazio primitivo; Gaia, a terra; Tártaros, a escuridão primeva; Eros, a atração amorosa. Os descendentes imediatos são também relacionados: Hemêra, o dia; Nix, a noite; Urano, o céu; Ponto, a água primordial.

Os mais notáveis descendentes de Uranos e Gaia foram os titãs, como Crono, Oceano, a água doce, Jápetos e o gigantesco Ceos; as titânides, como Têmis, a lei, e Mnemósine, a memória; os ciclopes, que tinham um único olho; e os hecatônquiros, gigantes com cem braços e cinqüenta cabeças.

Depois, o poeta descreve como Crono assumiu o poder (154-200) e inadvertidamente deu origem a Afrodite, deusa do amor sensual; relaciona os descendentes de Nix, entre eles Tânato, a morte, Hipno, o sono, e Oneiro, o sonho (211-232); os descendentes de Ponto (233-336), entre eles Nereu, o mais antigo deus do mar e pai das nereidas e Fórcis, progenitor de monstros como as Górgonas, Equidna, com tronco de mulher e cauda de serpente, e a Esfinge; os descendentes de Oceanos (337-403), entre eles os rios e fontes, as ninfas da terra firme, os ventos, Métis, a sabedoria, e Hélio, o sol; os descendentes de Ceos (404-452), especialmente Hécate, a dádiva.

Figura 1. Zeus derruba um titã não identificado. Detalhe do relevo de mármore do frontão do Templo de Ártemis em Corfu (pedimento oeste). Zeus CronosData: -590. Corfu, Archaeological Museum. © Ekdotike Athenon. A história de Zeus, filho de Crono, e como conseguiu destronar o pai é contada nos versos 453-506. A lenda de Prometeu, filho de Jápeto, e a criação da primeira mulher são relatadas nos versos 507-616. Nos versos 617-721 é descrita a titanomaquia, luta entre Zeus e os titãs pelo domínio do mundo. Auxiliado entre outros por seus irmãos Hades e Posídon, pelos ciclopes e pelos hecatônquiros, Zeus vence os titãs e prende-os no Tártaros, descrito juntamente com o mundo subterrâneo nos versos 722-819.

Vencidos os titãs, Zeus teve ainda de enfrentar e vencer o monstruoso Tífon, filho de Gaia e Tártaro (820-880), mas logo depois consegue se tornar o soberano supremo dos deuses. Algumas de suas aventuras com deusas e mortais são descritas nos versos 881-964, e notável é a lenda da filha de Zeus e Métis, Atena, que ao nascer saiu da cabeça de Zeus. Nos versos 965-1020 são descritos os amores entre deusas e mortais.

Os dois últimos versos, 1021-1022, contêm uma nova invocação às Musas e ligam a Teogonia a um poema autônomo perdido, o Catálogo das Mulheres, do qual restam apenas alguns fragmentos.

Fontes
numerosos manuscritos completos e diversos fragmentos significantes de papiros chegaram até nós. Os mais antigos manuscritos são o Rylands 54, de Manchester (séc. -I/I), o Laurentianus xxxii 16, da Biblioteca Laurenciana de Florença (séc. XIII); o Vaticanus 915, da Biblioteca do Vaticano (séc. XIV); e o Parisinus 2883, da Biblioteca Nacional de Paris (séc. XV).

Edições
A edição princeps da Teogonia é a aldina, de 1495. As principais edicões modernas são as de Gaisford (1814/1820), Koechly e Kinkel (1870), a de Rzach (1902), a de Evelyn-White (1914) e a de Mazon (1928). A mais moderna e a mais utilizada atualmente é a de Solmsen (1966). Aqui, foi utilizada a edição revisada de Evelyn-White (o.c.).

A primeira tradução completa da Teogonia para o português é a de Torrano (1981), recentemente reeditada (Iluminuras, 1991), seguida posteriormente pela de Jabouille (1999).

Passagens selecionadas
A primeira passagem ilustra a seqüência da cosmogonia grega a partir de Urano, o céu, e Gaia, a terra; a segunda, como duas divindades abstratas, Hipno e Tânato, o sono e a morte, foram genealogicamente relacionados por Hesíodo a Nix, a noite.

Urano e Gaia
E Gaia certamente deu origem primeiro ao estrelado Urano
igual a si mesma, para circundá-la em toda sua volta
e ser para os deuses bem-aventurados morada imutável e eterna.
E deu origem a grandes Montanhas, agradáveis lugares para as divinas
Ninfas que moram no alto, em vales arborizados das montanhas.
E originou também a infecunda vastidão que se eleva em vagas,
Pontos, sem o desejável ato de amor. Mas depois,
tendo se deitado com Urano, deu à luz Oceanos, de profundos turbilhões,
Ceos, Crio, Hipérion e Jápeto;
Téia, Réia, Têmis e Mnemósine;
Febe de dourada coroa e a amável Tétis.
E depois deles o mais jovem, Crono de mente tortuosa,
o mais terrível dos filhos; e ele odiou o vigoroso pai.

Hipno e Tânato
E lá os filhos da sombria Nix têm morada,
Hipno e Tânato, deuses terríveis; e nunca
o brilhante Hélios olha para eles com seus raios
quando sobe ao céu nem quando desce do céu.
Um deles a terra e a vasta superfície do mar
percorre tranqüilo e aos homens é agradável;
o outro, de coração de ferro e sentimentos de bronze,
impiedoso no peito, segura dentre os homens aquele
que agarra; e é também odioso aos deuses imortais.

Referências bibliográficas
CRANE, G. (ed.). Perseus Digital Library. Data: abril de 1998.
EVELYN-WHITE, H.G. Hesiod, Homeric Hymns, Epic Cycle, Homerica. London: Harvard University Press, 1936.
ROCHA PEREIRA, M.H. Estudos de História da Cultura Clássica I. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 7ª ed., 1993.
SERVI, K. Greek Mythology. Athens: Ekdotike Athenon, 1998.
TORRANO, J.A.A. Hesíodo, Teogonia: a origem dos deuses. São Paulo: Iluminuras, 1991.

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