terça-feira, maio 04, 2004

O Sonho do Bicho Papão

"Certa vez eu vi, em sonho, um bicho que tinha muitos chifres mesmo. Com eles espetava outros animais pequenos. Ele se contorcia como uma cobra e assim fazia ruindades. Aí veio um vapor azul de todos os quatro cantos e, com isso, o bicho parou de devorar. Depois veio o querido Deus, ma, na verdade, eram quatro deuses queridos nos quatro cantos. Aí o bicho morreu e todos os animais que ele tinha devorado saíram dele vivos outra vez".

Na primeira parte, o bicho-papão e os animais pequenos dominam sozinhos o campo. Na segunda, aparece Deus e os deuses e o bicho é despojado do seu poder. Trata-se, pois, de um confronto entre o animal e Deus, entre o bem e o mal.

O duplo aspecto do animal


O animal do sonho não tem nome e também não é descrito com pormenores. A única característica é que ele tem muitos chifres, com os quais espeta os animais pequenos para depois devora-los, e se contorce como uma cobra.
O animal é portador de sinais contraditórios. É uma criatura que se contorce como uma cobra. Assim pertence ao elemento frio e úmido, ctônico. Os chifres estão ligados ao elemento ogoso e ardente da paixão penetrante. Se parece com uma cobra, elemento ctônico (khthon = ter
ra), obscuro feminino passivo e devorador terrestre. Os chifres, elemento masculino, ativo. Assim, o animal é um monstro, ctônico, que representa, como criatura cosmogônica primordial, a simbolização da chamada prima matéria, a substância primária que, pela sua natureza, sempre foi considerada bissexual. De muitos monstros se diz que teriam elementos masculinos e femininos. De acordo com a mitologia egípcia, NUM, a substância primordial úmida, torna-se a "matéria-prima parturiente, de natureza simultaneamente masculina e feminina e que também fora invocada como AMON, A ÁGUA PRIMORDIAL, a essência do princípio, como "pai dos pais" e "mãe das mães". Assim, BEHEMOT e o LEVIATÃ devam ser considerados um único e mesmo monstro. Tiamat, a mãe primordial dos babilônios era bissexual, criatura primordial hermafrodita no simbolismo da alquimia.
Assim, não se trata de um animal comum, mas de um dos monstros míticos que representam a encarnação simbólica de uma totalidade. Entendido psicologicamente seria o mundo dos instintos e dos impulsos, isto é da psique ligada ao ser biológico, manifestada, na linguagem figurada, pelo animal antediluviano arquetípico. A bilateralidade das criaturas lendárias é característica dos tempos primordiais; por isso mesmo, esses animais pertencem às camadas mais profundas do inconsciente. Manifestados em sua linguagem figurada, os animais que pertencem a esse mundo primordial são portadores do símbolo da matrix do feminino-receptivo, do vaso alquímico, da "cratera", do "recipiente", todas representações da "Grande Mãe, do materno que contém ainda dentro de si o masculino, da Grande Mãe como símbolo da esfera mais profunda do inconsciente, onde o antagonismo masculino-f
eminino ainda está indiviso.
O Dragão e a Serpenete
Esse animal pode ser o dragão, a personificação da força da água, tanto da destruidora como da doadora da vida. Na imaginação dos homens, o dragão estava, durante muito tempo, no princípio de toda a criação e a sua história coincide com toda uma série de tentativas humanas para livrar-se do seu poder devorador.
Os números pares, segundo conceito antigo, significavam o feminino, a terra, o subterrâneo e o mal, eram personificados pelo dragão ou, mais tarde, na alquimia, pela serpens mercurii, que representava a substância do princípio do opus.
O animal lendário antediluviano que devemos citar, antes de tudo, ao procurarmos o "material de ampliação", bem poderia ser o dragão. Já nas tradições mais antigas, ele é a personificação da força da água, tanto da destruidora como da doadora de vida.
Na imaginação dos homens, o dragão estava, durante muito tempo, no princípio de toda criação e a sua história coincide com toda uma série de tentativas humanas para livrar-se do seu poder devorador.
A relação entre começo do mundo e o dragão é vivamente descrita na cosmologia babilônica, onde Tiamat - o dragão que simbolizava o princípio obscuro, muitas vezes também representado como "serpente feroz" - é vencido pelo herói solar Marduc, com o que o mundo paternal, iluminado e masculino supera o mundo primitivo e maternal, a escuridão do inconsciente é rompida pelos raios luminosos do consciente.
Já no antigo Egito, o dragão era provavelmente um símbolo das grandes inundações do Nilo, com suas conseqüências fecundas e devastadoras, e, por isso, ele foi identificado, do mesmo modo, com o deus Osíris e com a deusa Hathor, respectivamente com Osíris em seu aspecto benéfico e com o adversário deste, Set, em seu aspecto destruidor.
Também a serpente Midgard da Edda deve ser considerada uma espécie de dragão; ela está no fundo do oceano que circunda o mundo, é ela própria este oceano. A mesma coisa é Rahab, o "monstro do rugido do mar", como Job o chama, uma personificação do mar primordial que só Javé pode apaziguar. A mais antiga deusa-mãe dos sumérios era um dragão-serpente. Diante da casa de Medéia jaz o dragão vigilante e diz-se que, à noite, não são os cavalos, como de dia, mas os dragões que puxam o carro solar. Também o carro da deusa-mãe Deméter é puxado por um dragão, enquanto ela permanece no inferno à procura de sua filha Perséone. Dafne, a grande inimiga de Apolo, chamada a "serpente gigante semelhante ao útero", que fora morta pelo deus, quando este era ainda menino e veio para Delfos, também era um dragão, ou melhor, um dragão fêmea. No mito da primeira fase grega, o delfim é entendido como símbolo da qualidade do mar de gerar e partir crianas. Dizia-se que o delfim era um animal marinho que tinha um útero, o que está contido na sílaba "delf".
Na Índia, no ramo Kundalini do sistema da Ioga, o chacra Svadhistana da região aquática é habitado por um dragão. Há ainda a figura da baelia que engoliu Jonas, assim como o Leviatã bíblico, que é descrito como uma panela, e o tornará como quando fervem os ungüentos. A luz brilhará sobre as suas pegadas, reputará o abismo como cheio de cãs. Os dragões eram sempre criaturas poderosas e temidas, mas, como traziam também a água e as chuvas, foram tidos como sagrados e até adorados. Em quase toda parte o dragão aparece ligado à noite, ao escuro, ao seio da mãe, às águas universais.
A natureza da serpente está ligada à contorção, faz parte do elemento ctônico, úmido-frio da água e da esfera do feminino e da matéria. Nas eras míticas, era tida como símbolo do okeanos ou do Jordão, isto é, das águas movimentadas. Ela é geralmente considerada a personificação do institivo e do impulsivo em seu aspecto ainda coletivo-impessoal, pré-humano e sinistro. Dependendo da forma em que a relação é encontrada, ela simboliza o inimigo da luz, a encarnação da "alma inferior" no homem, em suma, passa também como símbolo o sexo em sua signiicação de impulso obscuro, ou no sentido freudiano, que a considera um símbolo fálico-masculino, ou no junguiano, que lhe dá uma expressão ctônico-feminina e, por isso, a relaciona simultaneamente com o evolutivo e criativo.
Nas diversas mitologias, a serpente aparece quase sempre como companheira ou atributo das grandes mães da terra. Encontramo-la relacionada com Hécate, a deusa grega da lua, assim como com a deusa-mãe deméter. Está também estreitamente relacionada à água e encontramo-la nas tradições próximas das fontes curativas. Ela pertence ao deu "ctônico" Asclépio, o terapeuta; ela é até mesmo este deus.
Dos aspectos extraordinariamente múltiplos do simbolismo nos quais a serpente e o dragão aparecem, há apenas alguns poucos eventualmente úteis ao esclarecimento do nosso sonho. Como, no material do inconsciente, representam um dos símbolos mais frequentes e presentes por toda parte, o seu significado está sujeito a inúmeras variações segundo a relação em que surgem.

O Chifre


Os chifres são símbolos fálicos. Eles estão situados no lugar oposto ao tronco da serpente, de natureza terroso-úmida. Nas eras mitológicas e entre os povos primitivos, o chifre encarnava os raios solares, o princípio ativo-masculino e ígneo então. Essa qualidae "solar-ativa" pode manidestar-se tanto criativa como destrutivamente. Quando os raios solares penetram na terra, podem levar a semente a germinar, tendo, portanto, um efeito fecundador - imaginação que semantém até hoje; mas, do mesmo modo, eles podem tmbém queimar e destruir a vida com seu fogo; mas, independentemente da forma em que se encontram, sempre desempenham o papel de um causador e, por isso, representam sempre força e poder.
O significado do papel do chifre, com o seu aspecto tanto negativo como positivo, são documentados por inúmeras tradições de semelhante teor em todos os povos. O diabo, como príncipe das trevas, tem quase sempre chifres, imagem que se preservou até hoje, apesar do aspecto atual mais civilizado e manso do que na Idade Média, em que se imaginva Satã como um monstro horripilante, sempre pronto, com a goela escancarada, a devorar pecadores.

A Serpente com Chifres


Entre os dragões policéfalos, há muitos cuja fama é imorredoura. Todos conhecem o dragão de Ládon, que vigiava as maçãs de ouro das Hespérides ou a hidra de Lerna, a serpente aquática vencida por Hércules, de muitas cabeças e com o sopro venenoso e que podia fazzer penetrar no corpo dos homens um chifre mortal semelhante.
Diabo, Dragão, serpente - eles são equiparados em quase toda parte Gerardus Dorneus, alquimista do século XVI, acreditava reconhecer o próprio diabo na serpens quadricornutus - a serpente de quatro chifres.

Espetar e devorar


São essas as maneiras de agir peculires tanto ao homem como ao animal.
Espetar é análogo a perfurar. Atravessar, penetrar, etc., estão por isso, em relação estreita com o instrumento que o executa e que deve ser um bastão, uma lecha, uma espada, uma lança, um estilete, isto é, algo pontiagudo, afiado, penetrante. É o chifre que possui essa qualidade e realiza o ato de espetar; são qualidades apaixonadas, ativas, progressivas da psique que podem sersimbolizadas desse modo.
A penetração pode assumir as formas mais variadas e atuar tanto de maneira destrutiva como fecundante, sendo um propulsionador que conduz desenvolvimento ou ao induzir à morte, dá também o impulso para o renascimento.
O espatamento dos animais pequenos deve ter sido uma ecundação dolorosa, condição prévia para a sua posterior ressurreição viva.
Ser comido ou devorado é também um motivo arquetípico amplamente propagado, encontrado inúmeras vezes bas lenadas, contos e mitos. Seu exemplo mais conhecido é a história de Jonas engolido pela baleia. Ser engolido é visto simbolicamente como descer aos infernos, reafundar no ventre da mãe, o que tem como consequência a extinção da consciência e, portanto, a morte do "eu" ao ser engolido pelas trevas do inconsciente, que é também um símbolo da mãe medonha, representada pela goela voraz da morte (aundamento da libido do inconsciente).

O Duplo aspecto psicológico


A bipolaridade faz parte da natureza original. Os dragõe e as serpentes, símbolos poderosos das trevas e do mal, são conhecidos também como guardiães do ouro, dos tesouros ocultos e de miteriosasontes curativas. A serpente não significa apenas o impulso, mas tem também outro sentido simbólico, mágico, místico-religioso. Ela é a expressão de um estado singular, uma parábola de libido, em suma, o retrato do dinamismo da lama, que representa o decorrer incessante do processo psíquico.
A intenção de por o bicho-papão do nosso sonho em paralelo com o útero gigante, que, como o útero da Grande Mãe Mundo, devora e devolve à luz e tem os dois aspectos de destruição e de doação da vida, parece ter, desse modo, certa justificação.

Os Animais Pequenos


Os pequenos animais espetados não são claramente descritos; não sabemos de que espécie de animais se trata. São talvez meras substâncias corporais, vivas e simples, ainda sem nome e classificação. Querendo entendê-las como funções psicológicas, poderíamos designá-las como partes vivas de componentes uncionais da psique.
Do mesmo modo, podem, no entanto, ser também uma espécie de produto de decomposição, elementos desintegrados da psique ou conteúdos psíquicos autônomos, que, atravessando a morte, no monstro devorador, no ventre materno do inconsciente, ressurgem para uma vida nova e uma unidade nova.
A parte do sonho até agora retratada ilustra um estado psíquico, no qual o aspeccto obscuro do inconsciente coletivo - condicionado pelo impulso e simbolizado pela imagem arquetípica do monstro com chifre - apresenta-se à consciência de sonho da menina, revelando o seu efeito negativo e destruior da vida, pelo engolir dos muitos animais pequenos, ou pelo aniquilamento de muitos comoponentes psíquicos soltos.

O vapor azul


"De todos os quatro cantos veio um vapor azul e aí o bicho-papão parou de comer". À atividade obscura e impulsiva das águas inferiores impõem-se poderosamente as enerias das águas superiores, das quais se diz que, nelas, está incluído o espírito do mais elevado". O ponto culminante oi alcançado e começa a mudança.
O vapor é como o corpo pneumáico dos alquimistas, é a substância volátil, o sopro feito alma. A água que se volatiliza como vapor no ar ilustra bem a transformação de algo corpóreo em algo incorpóreo, em algo que tem a forma de gás ou de espírito. Dele nascem as nuvens, os arautos da chuva e da fecundação da terra.
Os vapores representaam, por assim dizer, as pilastras de sustentação das forças superiores, capazes de realizar a conversão e a transormação.
O vapor azul evoca quase de imediato a expressão fazer vapor azul, que significa querer intrujar alguém. O vapor azul é usado para designar imaginações e idéias não comprovadas, sem sentido, fugazes, irreais, destinadas a enganar. Esse aspecto no sonho foi visto de outro ângulo, em seu sentido prospectivo, ao supor que um dos objetivos do sonho tenha sido a suavização do aspecto terriicante do monstro ou de sua realidade, envolvendo-o em vapor azul e, assim, torná-lo mais suportável.
Vapores azuis representam uma passagem, um elemento de ligação entre as duas esferas da psique inconsciente que faz parte tanto da esfera aguada, inferiro, como da superior ou azul, e une, desse modo, ambas dentro de si.

Os Quatro


Sem serem condicionados pelo tempo ou pelo espaço, surgem, vindos dos quatro cantos do todo, os "vapores azuis": num poderoso cerco, eles transformam o espaço indefinido em unidade, tal como os quatro anjos do Apocalipse, que empunham os ventos nos quatro cantos do mundo ou, como na visão de Daniel, os quatro ventos do céu que lutam sobre o grande mar.
A ação destruidora do poder "ctônico", que domina no inconsciente, é detida pelo aparecimento de energias opostas de ordem pneumática e espiritual, que o apanham a partir dos quatro lados da alma.
Com o aparecimento dos vapores azuis, o bicho-papão pára de devorar; tocado pela força misteriosa da quadruplicidade e atingido pela lei coordenadora da quadratura, ele se detém como que paralisado.
No estado inicialmente desordenado, na massa confusa da psique inconsciente, simbolizada pelo bicho devorador, nasce, pela demarcação dos cantos, uma primeira "ordem", tal como nos cultos antigos é marcado o espaço dentro do qual pode ocorrer o mistério da transformação; porque a quadruplicidade, disposta num quadrado, possuía, em muitas idéias religiosas, uma qualidade protetora de efeito mágico, um caráter numinoso de significação sagrada.
O quatro é um símbolo arcaico que se encontra provavelmente já na era paleolítica. Corresponde ao berço da humanidade. A quadruplicidade dos elementos como substâncias básicas, na filosofia natural, os quatro humores e os quatro temperamentos, na medicina antiga, tiveram importante papel no desenvolvimento espiritual da humanidade.
Para Jung o quatro simboliza sempre algo muito essencial em relação ao próprio sonhador, que, em certo sentido, é o fundo criativo de uma experiência de natureza religiosa, tal como são vivenciadas continuamente, em variações infinitas, desde que a humanidade existe.

Um e Quatro


Os vapores azuis dispostos em quadrado formam o lugar psíquico em que o Uno (imagem de Deus), preexistente na alma, nasce e recebe forma.
Surge o querido Deus para vencer, com sua onipotência, o monstro das trevas.
A quaternidade é uma representação mais ou menos direta de Deus manifesto em Sua Criação, segundo Jung.
Tudo quanto é quadrado aspira ter um centro, porque o quatro só atinge a sua realização final pelo aparecimento do Um.

Renascimento


"Aí o bicho morreu e todos os animais devorados saíram vivos outra vez". O círculo está fechado, os mortos ressuscitados. Os animais pequenos não pereceram no interior do ventre do dragão, apenas passaram por uma espécie de viagem ao inferno, um estado de enclausuramento nas trevas, e acordaram para uma vida nova.
A idéia do renascimento, da ressurreição, da superação da morte não é exclusivamente cristã. Floresce em todos os povos e culturas.
E-mail

Inconsciente, o Ego e a Grande Mãe























E-mail