sábado, maio 15, 2004

Mitologia

Uma lenda conta que, depois de haver criado a raça humana, os deuses entraram em uma discussão a respeito de onde esconder as respostas para as questões da vida, para que os homens se vissem forçados a procurá-las.
- Podemos escondê-las no topo de uma montanha. Eles nunca irão procurar lá. - disse um deus.
Não, disseram os outros - Eles logo as encontrarão.
- Podemos ocultá-las no centro da terra. Eles nunca irão procurar lá - sugeriu outro deus.
- Não - disseram os outros. - Eles logo as encontrarão.
Então outro deus disse: - Podemos escondê-las no fundo do mar.
Eles nunca irão procurar lá.
Não - disseram os outros. - Eles logo as encontrarão.
Todos se calaram...
Depois de algum tempo outro deus sugeriu:
- Devemos colocar as respostas às questões da vida dentro dos homens. Eles nunca irão procurar lá.
E assim fizeram.

APROXIMANDO DO TEMA
Mitologia. O que essa palavra evoca em você? Com certeza, mesmo sem o saber, você deve ter tido contato com alguma forma dessa narrativa, seja através de um livro, ou de algum filme cujos personagens compunham-se de deuses ou heróis gregos, como por exemplo "Ulisses" ou ainda" Jasão e o Velocino de Ouro".
Talvez você seja um aficionado de "Guerra nas Estrelas", com o "Pai Escuro", o tema dos irmãos, nos personagens de Luke Skywalker e a princesa Leia,da mesma maneira como acontecia em um antigo desenho animado, onde um irmão e sua irmã juntavam duas partes de um anel e então surgia um gênio, "Shazam" e "Kabuki", o camelo, ganhava asas. Ou talvez sinta alguma repugnância a respeito da saga "Alien", com uma mitologia a respeito de uma maternidade devoradora, uma excelente atualização de Mary Shelley, autora de "Frankenstein".
Shelley retirou a própria vida cerca de dez dias após o nascimento de seu primeiro filho.
Pois é, eles estão todos lá. Toda uma estrutura de mitos presentes, sem que o saibamos ou percebamos imediatamente.
Mitologia é algo de inerente à humanidade. Onde existe agrupamento humano, aí existe mitologia.Do Egito ao Oriente Médio, passando pela Índia e Ceilão; China, Japão, Sudoeste Asiático; Europa (Celtas, Nórdicos, Romanos, etc); as Américas (Planícies da América do Norte; Maia; Asteca; Caribenhos; Incas); Povos indígenas Su[-Americanos ); África (pigmeus; bosquímanos; Bantos; Yorubás); Oceania ( Polinésia, Melanésia, Micronésia, Austrália ): todas as raças, sem exceção possuem uma mitologia. Todas com seus relatos e narrativas mitológicas. Se todos esses relatos míticos fossem destruídos ou não sobrasse sequer vestígio dos mesmos, estariam todos reescritos em nossos sonhos na noite seguinte à sua destruição.
Então, partindo dessa premissa, os mitos seriam produzidos a partir de algum substrato ou espectro de nossa psique, o que nos levaria a supor uma base ou função mitopoiética, entendo "poiésis" como trabalho. Essa função mitopoiética está expressa no que disse um esquimó: "nossos contos são experiências humanas, e as coisas que alguém ouve não são sempre agradáveis de se ouvir... Quando narro nossas lendas e contos, não sou eu quem falo, é a sabedoria de nossos antepassados falando através de mim."poderíamos dizer então, que o mito se cria a si mesmo, cifrando-nos diuturnamente, pois tal atividade não cessa durante nosso período de vigília, o que nos remete ao Inconsciente, a um Inconsciente criativo. Joseph Campbell, em sua maravilhosa obra intitulada "O Poder Do Mito", (Editora Palas Athena), considera o "mito como um sonho coletivo e o sonho, um mito privado". Essa abordagem nos fornece uma chave interpretativa para o mito, na medida em que tomamos para nós a tarefa e o esforço de lermos o mito como um sonho de proporções coletivas, que pode pertencer a uma determinada coletividade, a um povo, a uma nação. Campbell também nos diz algo a respeito de sermos capturados por um mito, de alguma forma que uma narrativa específica permaneça em nossa memória, em nossa lembrança. Essa captura assemelha-se ao dizermos algo como: "esta noite eu tive um sonho!", quando o que aconteceu foi o contrário, o sonho é que nos teve. Também seria correto dizermos: "Um mito nos teve!".
Em outro momento de sua obra, mais especificamente, na série "Masks of God", ele nos fala a respeito dos serviços do mito, relacionando-os às questões fundamentais: "Quem sou eu?"; "De onde vim?"; "Para onde vou?"; e a outras como:"Que forças governam a vida humana?"; "Como essas forças poderiam ser adaptadas e postas a nosso favor?" ;"Qual é meu lugar próprio no mundo?", "Qual é minha vocação?"; "Como encontrar a pessoa certa para ser meu par?" . Todas as civilizações tentaram, de uma forma ou de outra, responder a tais questões. Mesmo uma criança pequena, na fase dos "Por quês?", está praticando mitologia, pois de "por quê? em "por quê?" se chega à origem da vida.

POR QUE ESTUDAR MITOLOGIA?


Se você é intrapsíquica e envolvido em procurar compreender o homem contemporâneo, pós moderno, você precisa compreender a antiguidade.
O que tem emergido nos sonhos, imagens, delírios, fantasias, expressão artística, etc., são um reflexo de temas recorrentes na Mitologia clássica.
Isso se refere também ao que James Joyce, escritor irlandês, em sua obra "O Despertar de Finnegans", chamou de "o grave e constante no sofrimento humano, e que Joseph Campbell dizia ser a "própria mortalidade, condição primordial da vida.Quando se trata de afirmar a vida, a mortalidade não pode ser negada.". A Mitologia é um convite ao exercício e a promoção de uma arqueologia psíquica. Isso se torna material de interesse de estudo tanto para psicólogos quanto para psicanalistas".

Disciplinas Auxiliares na Compreensão da Mitologia:
A despeito de barreiras relacionadas ao cientificismo racional no início do século XX, que considerava a mitologia como algo pertencente exclusivamente a sociedades e povos primitivos, não dizendo absolutamente nada a respeito e como algo sem lugar no mundo contemporâneo, tais resistências foram sendo superadas e disciplinas como Arqueologia, Lingüística, Psicologia, Antropologia, Etnografia, Sociologia, Mitologia comparada, Religião comparada e História da Religião têm contribuído para uma maior elucidação e compreensão do logos da Mitologia.
A própria Ciência, aliás, acaba por se constituir em um mito contemporâneo, pois uma das características do Mito, é vivê-lo.
Imaginem um cientista tentando explicar a origem do universo a um membro de um povo pré-tecnológico, dizendo que nosso universo foi criado a partir de uma Grande Explosão um "Big Bang". Essa linguagem não estaria muito distante ou não causaria estranheza a essa pessoa, que acreditaria que nosso deus seria "Big-Bang"!. Seríamos considerados por esses povos, provavelmente como os adoradores do "Big Bang". Não me surpreenderia se perguntassem com que tipo de danças e cânticos honraríamos esse deus, e o que deveria ser feito para aplacar sua ira e conseguir seus favores. Talvez a explosão de uma arma nuclear possa ser uma expressão inconsciente da recriação em menor escala, dessa mesma explosão do núcleo original que teria criado nosso Universo.

PRINCIPAIS MITOGRAFOS E ESTUDIOSOS
Dentre os principais estudiosos do mito e mitógrafos, podemos destacar os seguintes: o belga Arnold Van Gennep, que nos oferece um estudo clássico de algumas celebrações culturais em "Os Ritos de Passagem", da Editora Vozes (esse livro foi escrito em 1908 ); James George Frazer, antropólogo britânico, autor da monumental obra "The Golden Bough", uma série de treze volumes a respeito de mitos e ritos de diversos povos por ele visitados. No Brasil existe uma versão resumida, em um volume, intitulado "O Ramo de Ouro". A versão reduzida, em inglês é de melhor qualidade. Mircea Eliade, romeno, que após haver lecionado durante vários anos na Universidade de Bucareste, migra para os Estados Unidos. Sua vasta obra inclui ensaios a respeito do Xamanismo, História da Religião Comparada. Uma entrevista de Eliade foi publicada em um livro intitulada "Nos Caminhos do Labirinto". De tons autobiográficos, contendo os principais pontos de vista do autor a respeito de sua obra e pensamento. Karl Kerényi, húngaro, grande autoridade no que diz respeito a Mitologia Grega estudou seus principias mitos quase que um por um, (Prometeu, Dioniso, Asclépio, Eleusis, Zeus, Hera ), tornando-se um apaixonado pelo tema e papel desempenhado por Hermes na mitologia grega. Em sua lápide, lê-se "tetelesmenoi Hermei" (A testemunha de Hermes). Kerényi começou a escrever em 1927, incessantemente, até o ano de sua morte, em 1973, cujos temas sempre abordaram a história da religião antiga. A essência de seu trabalho consistia em estabelecer um conhecimento detalhado da arqueologia e da literatura a respeito da mitologia e religião da antiguidade clássica, considerando uma simpatia recíproca entre o intérprete e seu material, procurando torná-lo acessível ao homem contemporâneo. Para este fim, Kerényi promovia uma leitura psicológica do mito. Foi amigo de C. G. Jung e de Thomas Mann.
A correspondência entre Kerényi e Mann foi publicada, (em inglês), em 1975, sob o título: "Mitologia e Humanismo: A Correspondência de Thomas Mann e Karl Kerényi". Em uma dessas cartas, dirigidas a Mann, Kerényi escreve "Hermes, minha divindade favorita". Ainda na Mitologia grega, as obras de Richard Graves e Jean Pierre Vernant, não podem ser desprezadas de forma alguma.
Na última obra de Vernant, ele diz que após inúmeros estudos e pesquisas, chegou à conclusão de que a melhor forma de se abordar um mito, seria da mesma forma como a antiguidade os considerava: apenas narrando-os. Por isso decidiu escrever um livro que pudesse ser lido com facilidade pelo seu neto.
Estaria incorrendo em grave erro se não mencionasse o estudo profundo e denso de Walter F. Otto, "Dionysus", em que examina os cultos, a máscara, a tragédia e o teatro, relacionando com a mulher, o feminino, especialmente Ariadne.
Na Mitologia da Índia, o grande nome, sem dúvida é Heinrich Zimmer, que morou vários anos naquele país, autor de "Mitos e Símbolos na Arte e civilização da Índia" e "O Rei e o Cadáver: Contos sobre a conquista do Mal" , ambos editados pela Palas Athena. Joseph Campbell, excelente autor, americano, também um grande mitógrafo que dedicou-se a pesquisa da Mitologia em Geral. Entre suas obras, encontramos "A Imagem Mítica", e" As Máscaras de Deus", em quatro volumes, sendo que os dois últimos, entre eles, "Mitologia Criativa", onde desenvolve a hipótese de uma função mitopoiética, ainda não foi traduzido.
Dois anos antes de sua morte, deu uma série de entrevistas para a televisão americana, de grande repercussão, que foi editado e transformado em livro, intitulado "O Poder do Mito". Sua obra inspirou dois cineastas americanos, George Lucas e Steven Spielberg. No Brasil, sem sombra de dúvida, o grande nome é Junito de Souza Brandão, autor do "Dicionário MíticoEtimológico" de religião e mitologia grega e romana,"Helena, o Eterno Feminino", "Mitologia Grega" em três volumes. Em uma de suas aulas, ele disse que seu sonho era a publicação de uma coleção, competente, que tornasse a mitologia acessível às crianças. inspirado por esses autores, vamos examinar e nos deter em alguns mitos como, Prometeu, Dioniso, Perseu e Andrômeda,concluindo com um texto sobre o filme "0 Homem sem Sombra", refilmado recentemente, onde podemos identificar o tema do Minotauro e do Labirinto. Antes, porém, vamos passar por uma introdução geral ao Mito, examinando em seguida, o "Prometeu", considerando sua expressão na arte e na literatura.

INTRODUÇÃO GERAL AO MITO
De acordo com Joseph Campbell, o "mito não tem definição", seria uma projeção de nosso inconsciente, uma extrapolação do inconsciente, como um vulcão adormecido e que de repente explode. Como todos os vulcões, tais extrapolações emitem seus sinais, que não são totalmente silenciosos.
Ao iniciar uma pesquisa ou estudo a respeito de um mito, Kerényi indagava: "- O que surgia aos gregos na forma de Hermes?" , e a essa indagação seguia-se uma segunda: "Como, justamente isso, surgia aos gregos como um deus?". Ao que o próprio Kerényi respondia: "... ao nome de Hermes corresponde a alguma forma de realidade, uma realidade da alma, da psique humana". Quando um deus surgia ao ponto de ter uma mitografia registrada, isso implicava em algo de preciso e possuidor de uma personalidade distintivamente delineada, que não deveria ser separado dos aspectos primitivos e instintivos de sua configuração como aspectos moralmente reprováveis, por exemplo, às custas de uma idealização empobrecedora do nosso estudo.
Em sua etimologia, "mito" é uma onomatopéia, repetida ininterruptamente como uma litania. Um "my + thos" seria uma viagem para trás, onde nós vamos tentar recobrar um passado que não vai passar, nas palavras de Mircea Eliade, um passado presente "in illo tempore" que é eternamente repetido. Uma jornada no sentido de recobrar um passado que nunca se afastará de nós enquanto houver psique. Em sua expressão, um mito sempre é uma história sagrada, que nos remete ao "ritmo forte", ao "tempo de origem". Esse relato sagrado passa-se no tempo das origens e que não poderia ser exposto em tempo nenhum, muito menos nas chamadas "horas abertas", que são momentos perigosos, a saber, 6:00 da manhã; 12:00, meio-dia; 18:00 horas. Nessas três horas não poderia haver mito.
Esse relato não poderia ser falado por qualquer um, nem poderia ser escutado por qualquer um e quem escutasse não poderia retransmiti-lo. O mito só poderia ser relatado por alguém que tivesse "ciência divina".
Lévi Strauss em determinado momento de sua obra, diz que "... aquele que relatou o primeiro mito foi amaldiçoado". Cada vez que se repetia um mito, a pessoa angariava aquela energia que fluía naquele momento. A palavra energia vem de ergon, que significa trabalho. Quando um deus energiza em mim, ele trabalha em mim.
A perda do referencial é a perda do relato. A perda desse relato implica geralmente, na morte de um povo. Como diria o poeta irlandês W. B. Yeats, "o centro não se sustenta". Isso me faz lembrar o que tem acontecido aos índios caiuás e caiapós no Brasil, povos com alto índice de suicídio, justamente pela perda desse relato primordial.
Desconfia-se que o mito que nós possuímos seja uma versão poética do relato oral, o que os estudiosos chamam de "página mistérica". Outra característica do mito refere-se a sua polissemia, ou seja, às variações de sentido e leitura que podem ser realizadas a partir do mesmo. Uma explicação antropológica para os inúmeros variantes de um mito, seria a hipótese de que quanto mais estacionário é um povo, menos variante possui, como é o caso do Egito. A maior variação de mitos é o da Grécia, porque o grego fica em qualquer lugar do mundo menos na Grécia.
Nunca existiu uma Grécia, existiam pedaços de Grécia. Nas camisas dos atletas gregos, por exemplo, não se lê a palavra Grécia, lemos "Hellás", ou Hélade. O grego possuía cinco dialetos literários. Cada cidade grega constituía-se de forma distinta, e o que fornecia a unidade monumental da Grécia era tão somente sua religião. T ais variações, nas palavras do professor Junito Brandão, constituem-se em verdadeiro pulmão da Mitologia.

Função catártica do mito
O mito possui uma função catártica, purificadora. O que estaria sendo purificado? O páthos, ou seja, as paixões que são invocadas no mito. Aliás, um mito é invocado para que ele vá embora. Não se pode falar em mito sem deixarmos de falar em rito, que:
"É o aspecto litúrgico do mito, transforma a palavra em verbo, sem o que ela é apenas lenda, "legenda" o que dever ser lido e não mais proferido."
E ainda,
"Através do rito, o homem se incorpora ao mito, beneficiando-se de todas as forças e energia que jorraram nas origens. A ação ritual realiza no imediato uma transcendência vivida... ...Em resumo: o rito é a práxis do mito." BRANDÃO, Junito. Mitologia Grega. Petrópolis, Vozes, 1988.pp.38,39.
O mito nos remeteria, obedecendo ao seu rito específico, a um espaço e tempo sagrados, anterior, portanto a qualquer espécie e forma de sofrimento humano, por ser anterior ao próprio humano. O espaço do rito é um espaço de invocação, o momento em que o"dáimon" vai se manifestar de forma organizada. Estamos a dizer com isso, que nesse momento a catexia libidinal investida ideo-afetivamente se manifestaria não em forma de um caos, mas, repito, de forma organizada. Depois de invocado, acontece a catarse.

PROMETEU
Conta-nos o mito grego que a primeira geração (as divindades primordiais), criou a raça dos Titãs. Estes, na pessoa de Cronos, o deus-tempo, destronaram seus antecessores, castrando Urano (Céu), princípio masculino de todas as coisas. Depois, Zeus, filho de Cronos, sucede ao pai, e elimina toda antiga estirpe, numa guerra sangrenta que coloca os olímpicos no poder.
Pela lógica da seqüência temporal, a raça que sucederia aos olímpicos, em termos de tempo, deveria igualmente combatê-los e destroná-los. Mas esta raça são os homens. Até hoje a luta se trava, sem que pelo menos, a humanidade industriosa, inteligente e ambiciosa, que deseja igualar-se às potências divinas.
O homem seria falível, aquele que era, sofre, cai e levanta-se. O deus seria o modelo segundo o qual o homem se encaminha em busca da perfeição.
Prometeu não é um deus, mas um Titã (filho de Lápeto e Clímene). Seu crime consiste justamente em haver tentado criar uma raça que superasse os olímpicos, ensinando suas criaturas o trabalho de dominar a natureza e conhecer cada vez mais a si mesmas.
No esforço de penetrar nos mistérios da natureza, o homem é obrigado a abandonar o estado de lazer. Progredir custa sacrifícios. Custa também, a inveja e a repressão dos deuses, temerosos de que as civilizações mortais possam sobrepujar o reino olímpico.
Segundo a concepção psicanalítica, Prometeu representa o despertar da consciência o princípio da intelectualização, idéia contida em seu próprio nome, que em grego significa "pensamento previdente".
O mito contém três etapas. A primeira corresponde à criação do ser consciente, e, inclui o roubo do fogo, como elemento básico para a elaboração das culturas e civilizações que a consciência humana agora podia empreender. A Segunda etapa refere-se à sedução do homem pela mulher: Pandora. Especialmente enviada para fazerem os homens perderem o paraíso terrestre, destruindo a solidariedade que havia entre eles e bloqueia o caminho vitorioso do trabalho. A terceira fase do mito narra a punição de Prometeu. Ao ensinar o fogo aos homens, Prometeu liberta-os definitivamente da dependência divina. Sem o fogo, não seria possível transformar o mundo ambiente, nem adapta-lo às necessidades físicas de cada povo, em cada região. Ao redor do fogo, reuniam-se os homens primitivos, fazendo desse elemento um importante fator de sociabilidade. O fogo não é apenas instrumento de transformações de substancias, de cocção de alimentos, de criações artesanais. O fogo representa ainda a espiritualização (luz), a sublimação (calor). Mas é também o auge da destruição. Maravilhados com suas próprias invenções, os homens imaginam-se iguais aos deuses e já não sacrificam aos imortais. Degradam-se. Disputam sangrentamente bens materiais. O fogo passa a atuar como um fator destrutivo.
Neste momento, para punir os homens, os olímpicos enviam-Ihes Pandora, a mulher, a tentação, o símbolo dos desejos terrestres.
Ela seduz a criatura Prometeu, entregando-lhe a caixa que contém a miséria humana. Ao acolhê-la, o homem exerce sua liberdade de escolha, demonstrando a confiança no próprio esforço que os deuses, por meio de Pandora, queriam aniquilar.
Punida a humanidade, Zeus decide castigar Prometeu, o orgulhoso intelecto criador, mandando acorrentá-lo no monte Cáucaso, onde diariamente uma águia - atributo do rei Olimpo- estraçalha o fígado doTitã; à noite o órgão recompõe-se, para ser novamente devorado na manhã seguinte. Durante trinta anos, ou trinta séculos, conforme algumas versões, Prometeu sofre seu tormento. E o preço que paga por haver tentado transformar o mundo. Seus grilhões são os entraves impostos a toda criação: mudar correspondente a sofrer. Surge então, Hércules, a glória de Hera, criatura prometéica, liberta-o e mata a águia que lhe corroía o fígado imortal. Prometeu reconcilia-se com Zeus e entra no Olimpo. O fogo deixa de ser um poder destrutivo, para constituir-se apenas em elemento purificador, no qual se realizam os sacrifícios aos imortais.

PROMETEU NO TEMPLO E NA ARTE
Prometeu é cultuado sobretudo em Atenas, onde tem altares na academia, perto daqueles consagrados às Musas, às Graças, ao Amor e a Hércules. Muitas vezes era celebrado juntamente com Atena e Hefestos como divindade civilizadora. Nas festas Lampadedromias (festa das lâmpadas), os atenienses iluminavam as estátuas dos três deuses e diante delas realizavam jogos e corridas de archontes.
Em Roma, uma curiosa cerimônia matrimonial cultuava Prometeu como o deus da "formação da família". A jovem recém-casada tocava as mãos na água e no fogo, para atrair sorte ao casal.
Plutarco (46 a 120 DC ?) tenta explicar o ritual: "será por que, entre os elementos de que se compõem todos os corpos naturais, um deles, o fogo, é masculino e a água é o feminino, sendo um princípio do movimento e outro a propriedade da substância e da matéria? Ou será por que o fogo purifica e a água limpa, e assim é que a mulher deve viver toda a sua vida?" Artisticamente, encontramos Prometeu sendo representado de duas formas: ora roubando o fogo, ora criando o homem. Aparece como um obreiro cuja indústria é ainda mais importante que a de Hefestos, deus artífice. Enquanto Hefestos cria Prometeu cria homens.
A obra mais importante referente à criação do homem é um sarcófago do Capitólio, onde, na presença de Poseidon, Hera, Zeus e Apoio, Prometeu anima uma estátua humana. O roubo do fogo é figurado numa taça antiga, onde Prometeu aparece segurando um raio. Um sarcófago romano mostra-o saindo da oficina de Hefestos com uma tocha na mão.
O segundo tipo de representação de Prometeu é o que narra plasticamente o seu suplício. O tema é retratado pelos gregos, sobretudo em vasos de cerâmica. Numa destas obras o herói está sentado, sem poder movimentar-se, atacado pela águia. O suplício também foi o aspecto mais inspirador do mito, para os artistas românticos e modernos. Uma gravura de Theodore de Lie descreve Prometeu deitado sobre rochas e devorado pela águia.
Apesar do sofrimento, seu corpo não abandona a posição rebelde, e se contorce. Gustave Moreau, situou o herói numa paisagem fantasmagórica, onde é torturado pelo pássaro.
Na literatura, o mito é explorado ainda mais que nas artes plásticas. Esquilo, dedica a Prometeu uma trilogia, seguida de uma sátira. Desse conjunto de quatro personagens, apenas uma é conhecida até hoje: Prometeu acorrentado.
No dialogo Protágoras, Platão celebra Prometeu como deus civilizador, que dá o fogo aos homens para que estes possam suprir suas necessidades e inventar a linguagem, pois graças ao fogo, os homens se sociabilizam. Como elemento civilizador, Prometeu aparece também em As Suplicantes, de Eurípedes.
Os primeiros escritores cristãos, como Tertuliano e Santo Agostinho, adotaram Prometeu crucificado e revoltado contra os "falsos deuses", como uma projeção do Cristo redentor, o "verdadeiro Prometeu".
Na Renascença, ao contrário, viu-se em Prometeu uma imagem da consciência humana, que se levantava contra tudo o que fosse arbitrário. Na comédia mitológica de Pedro Calderón de La Barca, "A Estátua Prometeu", o herói é estudioso homem de ciências, que decepcionado por não ter conseguido ensinar concidadãos, retira-se a solidão e esculpe uma imagem de Minerva.
No Romantismo, Prometeu é exaltado como o "orgulhoso humano", que se revolta contra a divindade. Goethe num fragmento dramático intitulado Prometeu, descreve o herói liberto do medo dos deuses. Sua personagem chega a recusar parecer-se com um deus, e inclusive nega-se a morar com eles, no Olimpo.
Tanto na arte quanto nos cultos, vemos Prometeu como o da humanidade, tentando libertar-se do jugo próprio símbolo divino.

A UMA CONSCIENCIA P ARA OS HOMENS
Os homens agora estão dotados de cinco sentidos e uma alma.
Têm a capacidade de observar e ouvir, tocar e querer, cheirar e gostar.
A terra mostra-lhes fenômenos maravilhosos de fecundação e fertilidade. O mar é poderoso e rico. O céu, cheio de luzes e astros. Os vales são verdes, os animais rondam as florestas com suas diferentes vidas e estranhos costumes.
Mas os homens vagueiam como sonâmbulos pelo planeta, tateando-o, sem saber retirar dele toda a riqueza que poderiam.
Não conhecem a arte de quebrar pedras e esculpi-las. Não sabem fazer ídolos de barro, nem cortar madeira para construir casas. Vivem em grutas sem sol. Não distinguem a primavera do outono, o verão do inverno. Prometeu decide dar uma consciência a bela e trágica espécie que criara. Pacientemente, começa seu trabalho de mestre. A beira mar, explica aos homens a diferença entre o nascer e o pôr-do-sol. Felizes e deslumbradas, as criaturas mal podem crer que a Natureza se mova dentro de uma ordem tão harmoniosa.
Prometeu envereda pelas densas florestas. Ali ensina seus discípulos a domesticar os animais selvagens em seu próprio benefício. Depois, instrui-os na cura de muitas doenças fatais: como diminuir a febre, como aplacar com óleo as dores de feridas, como encontrar raízes medicinais entre a vegetação e como transformá-las em remédios.
Enfim, chega a hora de os homens penetrar no escuro labirinto de suas próprias cabeças. Prometeu mostra-lhes como interpretar os sonhos. E, para que eles possam também compreender os seus destinos, aceitando os sofrimentos e conquistando as vitórias, o grande sábio treina-os na arte de decifrar os oráculos.
Por fim, abre a terra. E um momento de espanto e intensa alegria. Os homens descobrem que a terra é rica. Contém ferro, ouro, prata e pedras preciosas. O mestre ensina-lhes o jeito seguro de extrair os metais.
Agora os homens podem reinar. Conhecem a natureza. Conhecem a si mesmos. Não os assustam o trovão nem os pesadelos noturnos povoados de fantasmas. Têm cinco sentidos; uma consciência; uma vontade. Uma força poderosa.

ZEUS RECEIA O PODER HUMANO
Zeus começa a desconfiar dos homens. São inteligentes demais. Com sua sabedoria e seu trabalho, constituem perigosa ameaça 'a raça divina. O deus chama então todos os habitantes do Olimpo e os reúne em Assembléia. E preciso decidir se os deuses ajudarão os homens em suas colheitas e navegações ou se os destruirão como vermes frágeis. Após longo conselho, resolvem que, se os homens erguerem suplicas, pedindo-lhes ajuda, e sacrificarem animais aos celestes poderes, os olímpicos continuarão velando pelo progresso das civilizações humanas.
Mas as criaturas de Prometeu deverão curvar-se ante a forca das divindades. Jamais ousarão sobrepor-se a elas. Nem tentarão vencer a natureza, sem pedir humildemente o favor dos seus superiores.
Os homens submetem-se. Passam a olhar o céu com temor.
Começam a sacrificar os animais em honra ao Olimpo. Aprendem a implorar perdão e graça, entre cantos e murmúrios. Criam pomposos rituais. Vestem-se com solenidade para cada culto. Os deuses estão satisfeitos.
Aquela raça inteligente e trabalhadora aprendera também o dom da humildade.

PROMETEU VINGA A RAÇA DOS TITÃS
Outrora os Titãs haviam sido destruídos pelos olímpicos, comandados por Zeus. Estes se apoderaram do governo do mundo, após extinguir impiedosamente um por um dos seus ancestrais.
Atlas e Menécio, dois irmãos de Prometeu, participaram da luta contra os ambiciosos deuses. Por isso foram punidos de forma trágica: o primeiro, condenado a carregar perpetuamente o mundo nas costas. geme de cansaço e sofrimento através dos séculos. O outro, fulminado por Zeus e condenado às trevas eternas do Erebo, sonha desesperadamente com uma fresta de luz.
Só Prometeu e Epimeteu não seguiram o exemplo dos irmãos.
Pois fingiram estar de acordo com os olímpicos. Participaram de suas assembléias. Festejaram seus banquetes.
No entanto, Prometeu guardou sempre no coração o ódio por aqueles que solaparam o poder de seu povo e condenaram seus irmãos a agonia eterna.
Chegou a hora da vingança.
Os deuses estão certos do respeito que lhes dedicam os mortais.
Porém, o filho de lápeto reserva outro destino para suas criaturas: os homens serão mais inteligentes que os deuses. E haverão de vencê-los.
A eterna luta se inicia.

PROMETEU ROUBA O FOGO DOS DEUSES
O filho de lápeto dera aos mortais uma forma física. Incutira-lhes uma consciência, uma alma. Transmitira-lhes o conhecimento do mundo, a vontade de trabalhar e dominar a natureza.
Havia uma única coisa que eles não conheciam. Faltava-lhes um elemento fundamental para poderem construir as civilizações e alcançar o progresso: o fogo.
Sabendo disso, o grande Zeus, esconde-o.
Os homens são compelidos a comer os alimentos crus e frios. Não podem forjar os inúmeros metais que, conduzidos pela mão de Prometeu, haviam descoberto no seio da terra.
Também não podem fabricar os vasos onde guardariam a água.
Nem se aquecer quando a neve recobrisse a face do planeta.
Mais uma vez querendo pôr em prática seu antigo plano de vingança, e temendo pela raça que criara com tanta paixão, Prometeu decide entregar o fogo aos homens.
Quebra um comprido ramo seco de uma árvore, voa rapidamente até o céu e acende o galho no carro do Sol.
Com a chama acesa, alegria dos mortais e energia necessária a toda vida terrena, Prometeu volta a terra. Agora os homens conhecem o segredo do precioso elemento. Pouco difere dos deuses.

OS DEUSES TEMEM OS HOMENS
Zeus novamente teme que os homens tentem destruir os deuses, esquecendo-os ou sobrepujando-os. Eles estão cada vez mais altivos em suas colheitas. Podem construir abrigos. Sabem furtar-se ao frio. Nem precisam mais invocar a proteção dos deuses para que o verão volte logo. Sabem fundir o ouro e a prata. Podem fazer preciosos enfeites para as casas e os mais belos ornamentos para os corpos. Podem cunhar moedas, produzir riquezas, construir cidades, pontes, embarcações.
Podem até mesmo expressar, através da art....e, raiva, medo, paixão, alegria e todas as grandes vitórias. Os homens são poderosos. Não precisam de mais nada, além do próprio esforço.
Têm fé nas próprias mãos. Na própria luta.
Prometeu observa com orgulho a forte espécie que engendrara: suas criaturas têm rebanhos, terras, coragem, alegria. São lúcidas. Constituem terrível ameaça aos olímpicos. Talvez imponham ao mundo uma nova ordem, a ordem humana, sobrepujando os filhos e irmãos de Júpiter, como este destronara seu próprio pai, Saturno.
Os deuses estão em pânico. Discutem, no céu, como tornar os homens novamente submissos e humildes. Porque a raça humana não pode ser vitoriosa.

PANDORA
Zeus cria a forma mais rápida de destruir o paraíso dos homens: a mulher. Chama Hefestos, o habilidoso deus artesão, e pede-lhe que confeccione uma imagem feminina em bronze. Ela deveria assemelhar-se ao homem, mas em alguma coisa deveria diferir-se dele, de tal forma que o encantasse e comovesse, atrasando-lhe o trabalho e transtornando-lhe a alma.
Cada deus oferece alguma coisa àquela criatura, que já nasce par colocar em desconcerto a vida dos mortais. Athená, que não se considera mais amiga de Prometeu, pois este havia desafiado seus companheiros divinos, entrega à mulher recém-criada um lindo vestido bordado, que lhe cobre as harmoniosas formas.
Depois, coloca-lhe um véu sobre o rosto sereno e enfeita-lhe a delicada cabeça com uma guirlanda de flores coloridas.
Quando a virgem está inteiramente vestida, Afrodite oferece-lhe a beleza infinita e os encantos que seriam fatais aos homens indefesos.
Hermes presenteia-a com a língua. Apolo confere-lhe uma voz suavíssima. Pandora, "dotada por todos", está pronta para cumprir sua missão. Os astros iluminam a formosa figura que se prepara para descer à terra. Antes de enviá-la aos homens, Zeus entrega-lhe uma caixa coberta com uma tampa. Nela estão contidas as misérias destinadas a assolar os mortais: reumatismo, gota, dores para enfraquecer o corpo humano, inveja, despeito, vingança para despertar-lhes a alma, antes pura e solidária.
Quando Pandora chega ao mundo, encontra Epimeteu. Ele se encanta com a visão, e comovido recebe de suas finas mãos a perigosa caixa que ela lhe ofertara.
E um presente de Zeus, declara Pandora. Nem por um instante, Epimeteu suspeita de que todo sofrimento humano dali emergiria.
Ainda desorientado pelo deslumbramento que lhe causa a bela figura, esquece o juramento feito a seu irmão, Prometeu, de aceitar qualquer presente de Zeus.
Agradecido, abre a tampa da caixa fatal. Imediatamente, saltam de dentro dela todas as desgraças do mundo. Entretanto, no fundo do recipiente maldito, permanece um tesouro. Um sentimento precioso, que poderia estragar toda vingança dos deuses e destruir-lhes definitivamente qualquer praga: a esperança.
Zeus não quer que os homens esperem mais nada. A um só gesto do deus, Pandora fecha a caixa, deixando a esperança calcada no fundo, escondida para sempre.
E o homem perde seu paraíso.

UMA AGUIA DEVORA O FIGADO DE PROMETEU
As pragas da caixa de Pandora espalham a miséria. A. terra povoa-se de homens frágeis, cansados, medrosos e doentes. A inveja tumultua o trabalho das criaturas. Há guerras intermináveis. Fome e peste abatem-se sobre o mundo. Os astros brilham sem alegria sobre a humanidade imersa em perdição. Já não existe mais inocência ou amor. Antes, corrupção, agonia, brutalidade.
No entanto, os homens festejam, com banquetes intermináveis, comemoram a grande derrota de seu espírito. A raça que Prometeu criara, entre lágrimas emocionadas e a água viva que brotava do seio da terra, não tem mais face erguida de orgulho. O que existe é um festim inútil. Pandora tornara-se esposa de Epimeteu. Outras mulheres povoaram o mundo, com sua graça e desgraça. Os deuses estão felizes agora. Os homens são fracos e não tentam mais sobrepujá-los, pois estão fracos e aceitam a escravidão.
Resta punir Prometeu, que um dia ousara criar a humanidade para sublevá-la contra os olímpicos. E ainda fizera o poderoso Zeus passar uma pública humilhação no malfadado banquete em Sícion.
Deuses e mortais partilhavam de farta mesa. Um animal estava para ser dividido entre os comensais, e Prometeu fora escolhido para cortá-lo. Sempre disposto a ridicularizar os deuses diante dos homens, o filho de lápeto cortara o animal em dois pedaços: o primeiro continha: a pele, os intestinos e a carne; o outro reduzia-se a ossos e gordura.
Depois o Titã servira o animal a Zeus, que, pela fome e pelo orgulho, tomara a maior parte. Prometeu estremecera de júbilo: o rei do Olimpo escolhera justamente a porção de ossos brancos, sem carne alguma. Os mortais riram. Os deuses, enfurecidos, decidiram punir os homens, enviando-lhes Pandora. Mas para Prometeu, o castigo exato ainda não fora determinado.
Zeus chama Hefestos, o divino obreiro, e ordena-lhe que acorrente Prometeu no cume do monte Caucaso.

O MITO DA CRIANÇA IMORTAL
Mantendo Kerényi como referência, em que nos aponta o mito como uma função da psique, somos apresentados ao tema da Criança Imortal, que nos fala de uma função psíquica através do símbolo da criança que, como o próprio nome já diz nos apresenta a imortalidade.
Em termos psicológicos temos duas situações: o símbolo da criança que "estende suas raízes até o mais fundo recôndito da alma humana". Esse mais fundo recôndito é o nosso inconsciente. Em segundo plano, a palavra imortal que pode ser contraposta à palavra mortal. Neste caso, imortal é analogicamente tal qual o inconsciente, isto é, não morre.
O mito da criança imortal, com toda a sua dramaturgia habita o nosso inconsciente e deseja se apresentar à nossa mente consciente. Deixar viver esta criança, é uma tarefa para o herói que também está presente em nosso inconsciente.
A mitologia está repleta de mitos que procuram retratar os dramas psicológicos que nós encontramos quando entramos em contato com a nossa criança imortal.
Para exemplificar, entraremos em contato com o mito de Perseu, compilando as obras de Junito de Souza Brandão.

O MITO DE PERSEU
Tendo desposado a Eurídice, Acrísio, rei de Argos, teve uma filha, Dânae, mas desejando um filho, consultou o Oráculo. Este se limitou a responder-lhe que Dânae teria um filho que o mataria. Para fugir às premonições do oráculo, Acrísio manda sacrificar a sua única filha, prendendo-a junto com sua ama em uma câmara de bronze.
Zeus, o fecundador por excelência, penetra na inviolável câmara de Dânae por uma fenda nela existente e, sob a forma de "chuva de ouro", engravida a princesa, que se tornou mãe de Perseu. Ao saber do nascimento de seu neto, o rei de Argos, após ordenar a execução da ama, encerra mãe e filho em um cofre de madeira e ordena que sejam lançados ao mar. A pequena arca, arrastada pelas ondas, foi dar à ilha de Sérifos, onde reinava o tirano Polidectes.
Perseu e Dânae foram "pescados" por um irmão de Polidectes chamado Díctis (etimologicamente, a "rede"), pessoa muito humilde, que os conduziu para a sua moderna casa na ilha, encarregando-se de sustentá-los. Perseu tornou-se rapidamente, um jovem esbelto, alto e destemido, segundo convém a um herói.
Polidectes, tirano que reinava na ilha de Sérifos, era apaixonado por Dânae, porém nada podia fazer, uma vez que Perseu mantinha guarda encerrada em torno da mãe. Certa feita, este tirano convidou um grande número de amigos, inclusive Perseu para um jantar e no curso do mesmo perguntou qual o presente que os amigos gostariam de oferecer-lhe.
Todos responderam que um cavalo era o único presente digno de um rei. Perseu, no entento, respondeu que se Polidectes o desejasse, ele lhe traria a cabeça da Medusa. Na manhã seguinte, todos os príncipes ofereceram um cavalo ao tirano, menos o filho de Dânae, que nada ofereceu. O rei, que há muito suspirava por Dânae e, vendo em Perseu um obstáculo, ordenou-lhe que fosse buscar a cabeça de Górgona, sem o que ele lhe violentaria a mãe.
Todo herói conta com o auxílio divino para dar-Ihe respaldo na execução de tarefas impossíveis. Perseu terá por coadjutores celestes a Hermes, o deus que não se perde na noite e no caminho, e pela inteligência de Atená, que espanca as trevas para chegar à Medusa. O filho de Dânae teria que percorrer um tortuoso caminho. Primeiro, deveria procurar as "fórcidas", isto é, as três filhas de Fórcis, divindade marinha que era a primeira das "Gréias", quer dizer, " As Velhas", as quais, aliás já haviam nascido velhas. Somente as "Gréias" conheciam a rota que levava ao esconderjo das Górgonas e tinham a incumbência de barrá-Ia a quem quer que fosse. Mais importante ainda: eram as únicas, a saber, onde se escondiam determinadas ninfas, que guardavam certos objetos indispensáveis ao herói no cumprimento de sua missão.
Ajudado por Hermes e Atená, Perseu logrou chegar às habitações das "Gréias", que, por disporem de um olho só, montavam a guarda em turno estando duas sempre dormindo.
O herói se colocou atrás da que, no momento, estava de vigília e, em um gesto rápido, arrebatou-lhe o único olho, prometendo devolve-lo caso a "Gréia" lhe informasse como chegar às misteriosas ninfas. Estas, sem a menor resistência, entregaram-Ihe o que segundo um oráculo era indispensável para matar a "Górgona": sandálias com asas, uma espécie de alforje denominado "quíbisis", para guardar a cabeça da Medusa e o capacete de Hades, que tornava invisível a quem o usasse. Além do mais, o próprio Hermes lhe deu uma afiada espada de aço e Atená emprestou-Ihe seu escudo de bronze, polido como espelho.
Chegando ao esconderUo das Górgonas, Perseu as encontrou em sono profundo. Estes três monstros tinham a cabeça aureolada de serpentes venenosas, persas de javali, mãos de bronze, asas de ouro petrificavam a quem as olhasse. Não podendo, e por isso mesmo, fixar a Medusa, Perseu pairou acima das três "Górgonas" adormecidas, graças às sandálias aladas; refletiu o rosto da Medusa no polido escudo de Atená e, com a espada que lhe deu Hermes, decapitou-a Depois de assassinar a Medusa, o neto de Acrisio, partiu do ocidente em direção ao oriente e chegou a Etiópia, onde encontrou o pai assolado por um flagelo. E que a esposa do rei local pretendia ser mais bela do que todas as nereidas o que a própria deusa Hera. Estas enciumadas com a presunção da rainha solicitaram a Poseidon que as vingassem de tal afronto. O deus do mar enviou contra aquele reino um monstro marinho que o devastaria por inteiro. Consultando o Oráculo, este declarou que a Etiópia só se livraria de tão grande calamidade se Andrômeda fosse agrilhoada a um rochedo à beira do mar, como vítima expiatória do monstro, que a devoraria. Pressionado pelo povo, o rei consentiu que a filha fosse exposta as núpcias da morte.
Vendo Andrômeda exposta, Perseu se apaixonou e prometeu ao rei que a salvaria, caso este lhe desse a filha em casamento.
Concluído o pacto, o herói, usando suas armas mágicas, libertou a noiva e a devolveu aos pais, aguardando as prometidas núpcias.
Estas, no entanto, ofereciam certas dificuldades, porque Andrômeda já havia sido prometida em casamento ao seu tio Fineu, que planejou eliminar o herói. Descoberta a conspiração, Perseu mostrou a cabeça de Medusa a Fineu e seus cúmplices, transformando todos em estátuas de pedra. E importante dizer, que havia lutado bastante e inclusive matado alguns de seus adversários.
Acompanhado da esposa Andrômeda, o filho de Dânae retornou à ilha de Sérifo, onde, como não podia deixar de ser, novos problemas o aguardavam. Em sua ausência, Polidectes tentara violentar-lhe a mãe, sendo preciso ela e Díctis, se refugiassem junto aos altares dos deuses, considerados locais invioláveis. O herói, sabedor de que o rei se encontrava reunido no palácio com seus amigos, penetrou salão adentro e transformou Polidectes e toda a sua corte em estátuas de pedra.
Tomando as rédeas do poder, entregou o trono a Díctis, o humilde pescador que o criara. Devolveu as sandálias aladas, o capacete de plutão a Hermes, afim de que este os restituísse as suas legítimas guardiãs, as ninfas. A cabeça de Medusa, Athená a espetou no centro de seu escudo.
Deixando para trás o reino de Díctis, o herói, em companhia de Andrômeda e da mãe, dirigiu-se para Argos, sua pátria uma vez que desejava conhecer seu avô. Ao saber das intenções do neto e temendo o cumprimento do oráculo, Acrísio foge para Larissa, onde reinava Tentámides. Ora, o rei de Argos assistia, como simples espectador, aos jogos fúnebres que o rei mandava celebrar em memória do pai. Perseu, como convém a um herói, participava dos "agônes", e lançou o fornecido há tantos anos atrás pelo oráculo, e o mesmo vitimou Acrísio.
Cheio de dor com a morte do avô, cuja identidade lhe era desconhecida, Perseu prestou-lhe as devidas honras fúnebres, fazendo-o sepultar fora de Larissa. Não ousando, por tristeza, dirigir-se a Argos para reclamar o trono que, de direito, lhe pertencia. Foi para Tírinto, onde reinava seu primo e com ele trocou de reino. Assim, Megapentes, o primo, tornou-se rei de Argos e Perseu reinou em Tirinto.

ALGUNS COMENT ARIOS SOBRE O MITO
Como foi dito no início do capítulo, "os mitos são em primeiro lugar e antes de tudo (...) expressões simbólicas de dramas internos, inconscientes, que revelam a natureza da psique", e permitindo ao mito várias abordagens, os autores ressaltaram algumas passagens do mito do mito de Perseu, que acreditam tocar em sentimentos universais, apesar delas não destruírem o caráter singular que é vivenciado por cada leitor.

O VELHO E O NOVO - PERSEU E SEU AVO

INTRODUÇÃO AO MITO DE DIONISO
Segundo Joseph Campbell, em todas as culturas existem dois animais sacratíssimos. Na cultura indo-européia: o touro. No mundo semítico, o bode. Para Campbell, Dioniso é a fusão dos dois. Dioniso é touro e bode.
Nasce como bode e morre como touro. Morrer, no sentido de diasparagmós, que significa despedaçamento. Dioniso era ritualmente devorado na forma de um touro. Em sendo devorado, seus seguidores angariavam, adquiriam as energias do animal.
Apolo purificava na repressão, Dioniso purificava através da liberação. Os cidadãos, (civitas), da pólis, viviam coletivamente.
A comunidade cometia a falta tráqíca junto com a pessoa que comete a falta. O sacrifício era sempre coletivo. Dioniso era um deus catártico por excelência. O termo tragédia, que traduzido significa o canto do bode está intimamente relacionada ao culto de Dioniso. O canto do bode seria o canto de Dioniso purificando a falta trágica de uma comunidade.
Apesar de não possuir uma etimologia própria, Di-ó-Niso poderia ser traduzido como "o filho do céu" Zeus, enquanto luz, claridade, brilho, ter-se-ia unido às trevas. Dioniso seria fruto do amor entre Zeus e Perséfone, senhora do mundo subterrâneo, mulher de Hades. Na tragédia de Eurípides surge o nome Zagreu, que significa senhor. Zagreu seria o sucessor de Zeus. Ao nome Zagreu, sucedia-se o epíteto, "o touro", que era também o animal de Zeus. O touro seria a primeira forma de manifestação dionisíaca. Hera, mulher de Zeus, senhora das uniões legítimas, "a que jamais sorriu", enciumada, resolveu sacrificar o touro, Zagreu, como uma forma de vingança contra o marido. Hera envia a própria morte, Thánatos, para matar Dioniso, mas Thánatos não mata ninguém, apenas fecha os olhos, faz o último carinho por assim dizer.
Nos mitos, de maneira geral, quem vai matar alguém, tem que se pintar de branco, como os kamikazes. Algumas culturas pintavam seus cadáveres ou de branco, ou de vermelho. O branco a morte, o não retorno; vermelho: sangue, representando retorno.
Os titãs, com o rosto polvilhado de gesso, a mando de Hera, efetuam uma série de perseguições ao pequeno Zagreu, que havia sido colocado sob os cuidados de Apolo e dos Curetes, que o esconderam nas florestas do Parnaso. Os Titãs conseguem atraí-lo Com a imagem refletida em um espelho, (nós não conseguimos viver sem espelho ),onde vemos o que somos e o que não somos, e com o som de chocaihos, ossinhos, pião, carrapeta, "crepundia", o pequeno Zagreu se torna presa fácil dos Titãs.
De posse do filho de Zeus, os enviados de Hera fizeram-no em pedaços; cozinharam-lhe as carnes em um caldeirão de bronze e as devoraram. Esse despedaçamento, em grego, diasparagmós, possui em equivalente no setting analítico. A palavra análise, em grego, corte, nos indica que sem despedaçamento, sem diasparagmós, sem corte, não há como haver integração, reintegração, recomposição. Zeus, presenciando isso do alto do Olimpo, fulmina os Titãs fazendo uso de seus raios. Das cinzas dos Titãs, surgiria a humanidade, que seria então, um compósito luz e sombra. Da conjunção entre os raios de Zeus e as cinzas dos Titãs, nasceriam os homens. O lado sadio, à dimensão sadia corresponderia a dimensão dionisíaca. O lado doentio, ou seja, a dimensão doentia, corresponderia aos Titãs. Ainda de acordo com a cosmogonia grega, a Luz estaria ligada aos homens, ao masculino, enquanto as trevas estariam ligadas às mulheres. Athena, ou segundo outras versões, Deméter, consegue salvar-lhe a sede da memória, que é o coração, ainda palpitante. A princesa tebana, Sêmele engoliu-o, tornado-se grávida do segundo Dioniso. Hera, mulher de Zeus, atenta para com as aventuras amorosas do marido com Sêmele, resolveu eliminar a concorrência. Transforma-se em ama da princesa, e instiga-lhe a curiosidade, aconselhando-a insistentemente que pedisse a Zeus que se manifestasse em sua forma Olímpica, com todo esplendor. Zeus adverte Sêmele da loucura do pedido, uma vez que um mortal não teria estrutura física para suportar para suportar a manifestação de um deus imortal. Após uma noite de amores com Sêmele, Zeus, extasiado diz a sua amada que lhe pedisse o que quisesse, ao que a mesma prontamente respondeu:
"- Que o senhor do Olimpo, se manifeste em seu esplendor!". Zeus, contrariado, sem ter como fugir ao cumprimento de sua palavra, apresenta-se com seus raios e trovões, fulminando o palácio da princesa Tebana, e esta morreu carbonizada. Em um gesto dramático, Zeus recolhe do ventre da amada o feto de seu filho, colocando-o em sua coxa, até que se completasse a gestação normal. O menino nasce. Hermes recolhe o garoto, entregando-o a um casal real, provocando a ira de Hera, que os enlouquece como forma de punição por haverem acolhido um menino fruto do amor clandestino de Zeus. Este transforma o pequeno Dioniso em bode, sendo conduzido por Hermes ao monte Nisa, sendo confiado aos cuidados das Ninfas e dos Sátiros que lá habitavam.
Em Atenas evitava-se todo e qualquer contato entre os objetos cúlticos pertencentes à Hera e os que pertenciam a Dioniso. Nem mesmo as sacerdotisas dos cultos específicos sequer se cumprimentavam. Hera representava a ordem, a legalidade, padroeira e protetora dos casamentos. Dioniso, ao contrário, presidia as orgias e o "desregramento".

CONTRIBUIÇOES DO MITO AO SETTING ANALITICO
O tema de Dioniso nos possibilita algumas reflexões psicológicas valiosas quanto ao setting analítico. Uma primeira consideração pode ser feita a partir do esquartejamento ritual de Dioniso, que em grego atende pelo termo "diasparagmós". Análise é morte.
Análise é despedaçamento, esquartejamento. Essa morte se faz necessária por obedecer ao princípio da própria vida. Reter a morte é reter a própria vida, e incorrer em gravíssimo erro de avaliação de nós mesmos, já que tais atributos não dizem respeito ao humano, mas ao divino, e se isso ocorre, temos um indicativo de que a pessoa em questão, e que tanto pode ser o analista quanto o analisando, está identificado com uma certa onipotência, e, repito, onipotência não diz respeito ao humano. No curso de nosso desenvolvimento psicossexual, para prosseguirmos, algo deve ser deixado para trás e a esse deixar para trás, corresponderia justamente ao princípio de Thánatos, ou à presença dos titãs, como elemento desagregador. Análise, entretanto, também é síntese. Não existe análise sem síntese. E preciso que os conteúdos que "morreram" sejam utilizados como sementes para novas possibilidades do ser, do existir. O que foi "cortado", precisa funcionar como uma semente para novamente reintegrar-se à totalidade de uma pessoa.
Análise também é catarse, ou seja, purificação. Em nosso metabolismo psicológico, como ocorre em nosso corpo, o que não é integrado deve ser posto para fora. Assim como nos "sujamos" em nosso dia-a-dia, e tomamos banho para nos limparmos dessa "sujeira", também corremos o risco de nos contaminarmos psicologicamente com por exemplo, o ódio coletivo, ou alguma má notícia em uma página policial, e lá estamos nós, pensando e comportando-nos como a multidão.
A proposta analítica nos faz ir de encontro à massificação e coisificação do homem. Portanto, é também uma proposta política.
Quanto a Sêmele, incendiada pela forma olímpica de Zeus, poderíamos dizer que o confronto do ego com o inconsciente não deve ser promovido se não houver um anteparo, ou seja, esse confronto precisa e deve ser mediatizado sob a pena de termos nossa consciência fragmentalizada, podendo incorrer até mesmo um episódio psicótico.
Enquanto aos titãs corresponderia uma função psíquica desagregadora, ou seja, de corte, ao princípio organizador e ordenador corresponderia Zeus, que finalmente põe fim ao rito de cocção de Dioniso, fulminando-os com seus raios, surgindo daí a espécie humana.
Esse compósito luz e sombra nos proporcionam uma reflexão importante quanto a ato analítico, uma vez que, do início ao fim do processo, ocorre essa luta entre a luz da consciência e as sombras do inconsciente. Daí a utilização da penumbra em um setting analítico, que seria um meio termo entre essas instâncias de luz e sombra. Ressalta, também, este momento do mito, a importância fundamental da consciência como fator de discernimento e discriminação. Sem consciência, não existe análise, não existe nem corte, nem integração, por não haver uma consciência para integrar todos esses processos.
Por último, lembramos que Dioniso foi "cozinhado" em um caldeirão de bronze. A importância desse detalhe reside no fato de que o caldeirão representa o ambiente seguro e necessário para essa cocção, além de ser considerado como um elemento de propriedades "apotropaicas". Esta é uma palavra de origem grega, que quer dizer:"tudo aquilo que nos defende de..."Ou seja, o setting analítico deve ser como esse caldeirão que nos defende de tudo aquilo que emerge de nosso inconsciente, propiciando um ambiente seguro, favorecendo o processo analítico. Uma pessoa precisa sentir-se segura no setting analítico para que consiga entrar em contato com os conteúdos que emergiriam do mais fundo recôndito de sua alma, ou seja, de seu inconsciente.